O Sustentável Peso de Ser

A vida não é fácil. Entretanto, na maioria das vezes, ela é inocente. Em grande parte dos casos a dificuldade parte de fora pra dentro, descontados os casos fortuitos e de força maior. Normalmente as decisões, escolhas e caminhos são guiadas justamente por aquele que sofrerá as consequências e colherá os ônus e bonus do processo.

“Ônus e bonus”. Heranças da malfadada linguagem corporativa, que migraram e se aboletaram como pardais nas gôndolas de auto-ajuda, como inexoráveis clichês. A expressão tem o poder de sintetizar um monte de sensações e suas nuances, as prensando para consumo rápido e sem argumentação. Talvez seja melhor assim. Talvez.

No jogo de cartas marcadas entre o ser humano e sua personalidade, cujo espelho invisível da autocrítica é o tabuleiro, muitas vezes é necessário se reinventar, ser coringa e canastra suja de si mesmo. A vida não é pôquer, tudo ou nada; tampouco é sueca, onde se pode embarcar na melhor opção e lançar trunfos de vez em quando. A vida blefa, grita, silencia, combina, trapaceia. Truco.

Se tem esperança de que? De um caminho leve, sem percalços, com a brisa inocente perfumada com flores do campo e a voz jovial do locutor anunciando um comercial de desodorante ou de margarina. O caminho normalmente não é assim. Não é uma estrada sem destino e sem nome, na qual se acelera e se ouve Lynyrd Skynyrd no rádio. Normalmente há buracos, atribulações e acidentes, alguns letais, nos quais romances, lembranças e expectativas jazem mortas no chão.

Se tem esperança de? De superar, de ganhar destreza dirigindo o próprio veículo que é o destino. Porém, ser motorista de si mesmo necessita de revisão, habilidade, cuidado e, mesmo assim, há a possibilidade ser surpreendido pelas mudanças climáticas das relações interpessoais ou com seu próprio ego. Não existe pista mais desafiadora do que nossa própria idiossincrasia. Eau Rouge. Se tem esperança?

Há momentos em que sentar no chão e olhar para o teto, mirando o nada, é a melhor solução. Outras vezes, a sensação de sufocamento é tamanha que a impressão é de queda livre, sem saber onde é o chão de nossa própria angústia. A verdade é que ser parece insustentável, mas não é. E se o filósofo grego diferenciava a leveza e o peso, este sendo ausência daquela, se enganou redondamente.

Leveza e peso andam de mãos dadas, como namorados existenciais. Muitas vezes, por convenção ou auto-imposição, há a necessidade e/ou vontade de ser leve, flutuar, andar em paz. No fim das contas, por maturidade ou por não haver opção, se convive com a dor, com os espinhos, como se eles tatuassem a alma para que finalmente se pudesse desnudar a leveza. Não existe o caminho da verdade; apenas caminhos, de verdade.

A leveza do ser talvez seja insustentável, mas o peso de ser é perfeitamente sustentável. É preciso conhecer, se
reconhecer, seguir em frente. O espetáculo do próprio sofrimento precisa apenas de uma pessoa na platéia: de si mesmo. Para que a mariposa do peso se torne a borboleta da leveza. Para que se siga em frente. Respira.

O Povoado

Aquele barulho diferente e um sacolejo mais insinuante que a nova passista globeleza. O pneu furou. O pneu, no caso, era de uma caminhonete. Furou, no caso, na margem da BR-116, a poucas horas do pôr-do-sol. Ao olhar para o lado esquerdo, apenas o horizonte. Ao olhar para o lado direito, um povoado simples.

Simples, mas prestativo. Encostando o veículo à procura de um borracheiro. Para um sujeito, cara de camponês, gente da pele curtida pelo sol. Eloquente, se dispõe a ajudar e chama o borracheiro, “o melhor da região”, ele diz. E o profissional chega lá e analisa o que houve. E era um furo grande, e precisava vulcanizar, e demoraria uma hora, talvez duas. Preço combinado, tudo certo. Um vai, outro fica ao lado do veículo.

Carro fechado, naquele pequeno povoado, hora de observar ao redor. Uma parada de ônibus com um pequeno logotipo onde se lia “Beberibe, eu te amo”, para proteger do sol os que precisam se locomover. Ao fim da tarde, ali, isolado, aparentemente não há muito o que fazer. Sinal de telefone, inclusive, não há.

Sem internet ou dados, a sensação é de solidão? Ledo engano. O camponês que buscou o borracheiro se apresenta, conta da formação técnica em mecânica, e que gosta de se embrenhar naquele local que mistura caatinga com litoral com pouquíssimos quilômetros de distância.

Logo chega mais um habitante, que conta que nos tempos dos avós tinha muita onça parda por ali. Sim, suçuaranas. E que hoje sumiram, mas ainda tem um tipo de cervo, algumas jararacas, as cascavéis já estão quase extintas.

E ali, atrás do povoado, tem um açude, onde implantaram tilápias e tucunarés, que se adaptaram bem, mas brigam muito, porque tucunarés são territorialistas e matam as tilápias. E ainda dificultam a pescaria, porque são inteligentes ao extremo.

Há uma igreja no meio da praça. Talvez seja uma capela. A falta de catolicismo impede saber a diferença entre uma e outra, mas é uma construção linda, parece uma casa de bonecas, com um santo em sua entrada. E um espaço para os guris, aproveitando que o sol está terminando o expediente, começarem a armar o futebol.

E um deles, o mais loquaz, olha e diz: “moço, vamos jogar bola?”, tirando um sorriso daqueles do fundo da alma e dando uma vontade quase incontrolável de dobrar as calças, tirar o sapato social e assumir uma das posições daquela pelada.

Ao mesmo tempo, jovens se reúnem na frente do povoado, mas não é nenhum motivo religioso ou festa na cidade. Estão esperando o ônibus para estudar. E não, não é colégio ou supletivo. É faculdade, na cidade ali perto. Alguns fazem direito, outros pedagogia e ali falam dos sonhos e contam que criaram um grupo de whats app. Mas como, se não há sinal telefônico? Rádio, wi-fi, modernidades.

E oferecem a senha da rede para ver os emails e passar recados. Mas não, não é preciso. Estar desconectado naquela hora é excelente. Esquecer o mundo para lembrar de si. E informam que naquela casinha azul vende sorvete artesanal. E o preço é baratinho. E tem de nata goiaba, uma combinação tão deliciosa e improvável quanto caatinga e litoral, com nacos de goiabada em meio à nata. Sabor que fica na memória.

O por do sol se aproxima pelas margens da BR-116, preguiçosamente, mesclando-se com a luz dos faróis dos veículos que rasgam aquela estrada. O tempo passa rápido e já vem o borracheiro com o pneu consertado – “muito trabalho, teve que vulcanizar” .

Enquanto ele coloca o pneu de volta, as despedidas, como se fossem velhos conhecidos. Promessas de um dia passar por lá de novo e comer um tucunaré no restaurante da moça, que por sinal é irmã do borracheiro, que namora com o cara que falou das suçuaranas, e ali todo mundo se conhece.

E naquele momento, conhecer aos outros é reconhecer a si mesmo. Agora entendo a mensagem da parada de ônibus.

Enquanto Vocês Dormem

Enquanto vocês dormem, eu penso. Penso no futuro de vocês. Qual caminho vão seguir? Uma quase entrando na vida adulta, outro começando a dar os primeiros passos. Onde o destino vai lhes levar? E como vocês vão moldar o destino?

Enquanto vocês dormem, tenho dúvidas, me arrependo, renovo as certezas, ergo a cabeça, choro e sorrio. Ser por vocês é ser por mim, e nunca é obrigação, apenas prazer e aprendizado. Aprender com prazer é uma dádiva, basta humildade, discernimento e boa vontade.

Enquanto vocês dormem, aprendo receitas de papinhas nutritivas, leio sobre equações de segundo grau ou funções, atualizo a conta do Netflix – “pô, não tá rodando” – e faço planos mais ou menos mirabolantes para realizá-los quando vocês acordarem.

Enquanto vocês dormem, me sinto protegido, os dois se combinam em uma defesa inexpugnável: capa e espada, tática e estratégia, amor e cuidado, sorriso e abraço. É o que move, onde posso tirar a armadura e descansar com serenidade.

Enquanto vocês dormem, o presente e o futuro se entrelaçam. Ser mais eu, para ser vocês. E eu fico divagando sobre inúmeras coisas que só fazem sentido pra mim, porque vocês descansam, me dando uma imensa sensação de missão cumprida em mais um dia nesta indústria vital. E nesse semblante terno e plácido, encontro meu repouso. Shhhh, vocês dormem.

Enquanto vocês dormem, eu sou paz. E quando vocês acordam, sou também. Com vocês, tudo é pleno.

Danse Macabre

Não existe nada mais efêmero que a eternidade. A alegoria e o adereço de estar sempre buscando um caminho eterno de glória e felicidade, visando o melhor para si e outrem é apenas uma maneira de imaginar rosas entre os espinhos.

Mas não que isso traga um tom de desesperança ou amargura, longe disso. O caminho, por si só, é tão divertido quanto difícil. As decisões que separam crianças de adultos devem ser tomadas com toda a carga que possuem. A alquimia que transforma medo em coragem é um segredo tão bem guardado quando fazer chumbo virar ouro, mas ocorre involuntariamente, quando a necessidade se faz presente.

Na busca silenciosa por um trajeto menos sinuoso e tortuoso, tudo influi, como um efeito borboleta. Muitas vezes, entretanto, mariposas se mostram borboletas no caminho, teimando em rodear a luz alheia, se alimentando da sinalização, para se manter em evidência e fatalmente queimando as asas e caindo sós ao tempo da queimadura. Não há vôo que se sustente sem brilho próprio.

Mesmo com as intempéries e as tormentas silenciosas, internas e externas, desfilando pelo tribunal social que julga e muitas vezes não tem coragem de sentenciar cara a cara, preferindo proferir despachos em forma de murmúrios, há sempre a certeza de que na próxima curva haverá novas possibilidades e essa expectativa alimenta a alma.

Se vive sempre em uma dança macabra rumo aos próprios túmulos. E são muitas sepulturas na vida, enterrando momentos, destinos, sonhos, convicções. Refazendo caminhos, ressuscitando esperanças. No baralho do destino, há sempre espaço para renovação. A carta é XIII.

Trânsito

O trânsito é a maior prova de paciência do mundo. É por isso que eu tenho sérias dúvidas sobre a capacidade serena do Dalai Lama. Porque ser sereno no meio do nada lá na Índia é uma coisa, mesmo com os chineses enchendo o saco. Quero ver ser sereno montado num iaque e engarrafado na cordilheira do Himalaia.

Voltemos ao problema da mobilidade urbana. Sim, o trânsito. Esse mal cotidiano que, na verdade, é a grande antítese social. Se compra um carro ou moto para ir mais rápido para algum lugar. Mas, como pediriam Jane e Herondy, não se vai. Não se vai a canto nenhum. Se fica ali, mais engarrafado do que azeite ruim, esperando a morte chegar ou o tráfego fluir, o que vier primeiro.

E isso só não basta, é possível piorar. Há de se lidar com os arquétipos do trânsito. Tem aquele motoqueiro que corta todo mundo sem ligar seta, se achando o Randy Mamola urbano até sofrer um acidente grave e aparecer sem perna em uma campanha do governo, qualquer governo, com aquela cara de quenga nova em puteiro.

Há o típico barbeiro gospel, aquele cara que não sabe dirigir, que corta os outros, que retarda a esquerda, que não liga a seta e ostenta aquele adesivo gigante com cunho religioso: “Foi Deus quem me deu”, “Dirigido por mim, guiado por Deus”, “Sou irmão de Jesus, será que sou fraco?” e demais congêneres, o que dá uma vontade gigantesca de exercer o ateísmo e, por outro lado, faz pensar que Deus é um péssimo motorista, dono de frota e instrutor.

Se o Todo Poderoso exercesse o lado Deustran, estilo Antigo Testamento, já teria desintegrado metade dos condutores, jogado uma chuva de gafanhotos em mais alguns e teríamos um tráfego mais calmo e sem congestionamentos – e constrangimentos.

Não podemos esquecer do motorista malandrão, que é Ayrton Senna na hora de avançar o sinal vermelho, Nelson Piquet na hora de xingar o coleguinha no trânsito, Penélope Charmosa na hora discutir cara a cara, Rubens Barrichello na hora de pagar as multas e Dick Vigarista quando tenta subornar o guarda. Sim, claro, a vida como ela é. Tem suborno e marmelada, sim senhor.

Temos também aquele condutor cujo carro tem o adesivo da família feliz e ele, além de três filhos e dois cachorros, tem síndrome de Tourette e sai xingando todo mundo, até um carro ofendido emparelhar com ele e o mesmo subir o vidro e colocar Haddaway bem alto pra tocar. Baby, don´t hurt me. No more.

Este é apenas o reflexo de um mundo onde catamos migalhas e comemoramos como Galvão Bueno quando a gasolina abaixa dez centavos, porque está muito cara – e está mesmo. Desviando de buracos em estradas municipais, estaduais e federais, como se fosse um carrinho de Moon Patrol, ou pagando aquele pedágio maroto e travesso quando a estrada é lisinha [mas sinceramente prefiro pagar o pedágio do que trocar os pneus e rodas detonados pelos buracos].

Esperando o trânsito andar, naquele congestionamento sensual, depois de pensar em inúmeras maneiras de matar o coleguinha que fechou seu carro, é necessário se dar conta que ser serial killer não seria suficiente, apenas o genocídio resolveria. E aí, em vez de continuar com estes pensamentos teratológicos, se liga o rádio para escutar uma música que transforma o motorista outrora raivoso em cantor de engarrafamento.

Agora, depois de relaxar e berrar aquele refrão que veio do âmago do ser, o trânsito parece fluir. Façamos como Raimundo Fagner, deixemos de coisa e cuidemos da vida. O desabafo dessas mal traçadas linhas parece surtir efeito e tudo volta ao seu norm… olha aquele filho da puta cortando sem ligar a seta, cara. Ele não merece uma morte dolorosa?

Jurubeba

Mirrado, franzino e com a voz que parecia um fiapo, ninguém acreditou quando Luiz Abelardo perguntou se poderia jogar na pelada da Rua Roberto Silva. Os moleques olharam desconfiados aquele garoto que mais parecia uma armação de pipa, de tão magro. Perguntaram a ele em que posição jogava e ele praticamente sussurrou: “no gol”.

Pois deixaram Luis Abelardo na de fora. Quando ele entrou, com o time mais fraco possível, simplesmente fechou o gol. Os guris tentaram vazá-lo de tudo quanto era jeito. De esquerda, de direita, de cabeça, e nada. O garoto magrinho parecia um exu tranca-rua debaixo dos três paus, transformando as redes em sua oferenda.

Depois daquela pelada de fim de tarde, P3, Pedro Paulo Pedreira, o técnico do time da Roberto Silva, que estava sendo em um bar na esquina, chamou o guri. Perguntou se ele queria jogar no Campeonato de Ramos pelo time da rua. Os olhos de Luiz Abelardo brilharam e ele já acenava a cabeça positivamente quando escutou uma voz de trovão.

“Moleque, qual é teu nome?”
“Luis Abelardo”, respondeu, com sua voz suave e pequena.
“Porra, isso nunca vai dar certo!”

O menino se assustou e o técnico da Roberto Silva se irritou com aquele velho barrigudo e intrometido. Salvador era o nome dele. Com aquele sotaque esquisito de quem comia pinhão, dizia que tinha sido zagueiro do Coritiba ao lado do Fedato, e que tinha jogado mais que ele. Todo mundo levava isso como bravata, mas era inegável que, entre uma cachaça e outra, o araucária parecia conhecer de futebol.

P3, já irritado, emendou:

“Ô Salvador, por que você acha que isso vai dar errado?”
“Porra, P3, o moleque tem nome de funcionário público de livro do Nelson Rodrigues. “Luiz Abelardo”. Onde isso vai dar certo. Não tem sonoridade de nome de goleiro!”

P3 ficou olhando incrédulo para o barrigudo curitibano, que arrematou:

“Veja só, presta atenção: quem era o goleiro do Flamengo campeão do mundo?”
“Raul”
“Raul, não. Rauuuuuuuuuuuuuuuuuuuul”
“E o do Vasco campeão carioca de 1982?”
“Acácio”
“Não, porra. Acáaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaacio”
“E o do Fluminense?”
“Paulo Victor”
“Não, cacete. Tudo junto! Pauloviiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiictor”

Depois de entender o raciocínio, P3 emendou:

“E o do Botafogo era o…”
“Cara, o Botafogo ganhou algo?”
“Não”
“Também, com goleiro sem sonoridade fica difícil. Com esse nome, o moleque não vai longe. Temos de mudar o batismo dele”

Luiz Abelardo olhava incrédulo para a discussão entre os velhos. P3 tentava argumentar e Salvador tomava mais um quartinho de sua cachaça, quando olhou para o rótulo da garrafa e definiu:

“Meu filho, tu, a partir de agora, vai se chamar Jurubeba nas peladas. Tudo bem assim?”

Luiz Abelardo apenas assentiu com a cabeça.

“Veja a diferença, P3: Luiz Abelaaaaaaaaardo, olha que porcaria”
“E agora… Jurubeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeeba, como um gato! Tá vendo?!”

Ambos gargalharam e até o franzino moleque riu. A partir daquele momento, Jurubeba era o camisa 1 do time da Rua Roberto Silva.

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Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “1986” “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” , “O Amor na Marca da Cal” e “O Clássico”

1986

21 de junho de 1986. As ruas de Ramos estavam vazias naquele sábado à tarde. E silenciosas. Se caísse uma agulha em qualquer lugar do bairro, seria prontamente escutado. A última frase que havia sido proferida, em altos brados, foi um “puta que pariu, não!” a plenos pulmões.

Na Rua da Feira, silenciosamente, Zabelê, Zumbi e Besouro, irmãos e companheiros de ataque no Cimão, saíram com a bola debaixo do braço. Encontraram Comunista e Munha, rivais do time da rua de baixo, mas naquele momento não havia clima para guerra. No meio da tristeza, havia um inimigo em comum e ele haveria de ser enfrentado.

Encontraram Girino chorando abraçado a Cecê. Logo eles que se digladiavam tanto e sempre nos clássicos do campeonato do bairro estavam ali, transtornados. Bobby chegou por perto, se comunicou com os irmãos hippies apenas com um olhar e disse aos galalaus emotivos: “Não acabou!”.

Ali, na rua, montaram as traves. Onze contra onze. Seriam eles que iriam enfrentar Platini, Bats, Giresse, Tigana, Amoros, entre outros. O apito imaginário tocou e eles começaram a jogar contra o mais envolvente e poderoso dos adversários: a imaginação.

Munha tabela com Zabelê, sabendo que Girino e Cecê estariam segurando a defesa. Passaram de passagem por Tigana e Amoros. Se livraram de Fernandez, que não sabia marcar. Um passe estilingado para Cabaço, que com um drible de corpo deixou Battiston na saudade. Ao cruzar, encontrou Comunista, livre, que só tocou para as redes. 1-0.

O time não se furtava ao ataque, embora os adversários fossem perigosos. Mas ali era uma revanche, uma vendetta, uma vingança, e eles não seriam intimidados. Mesmo assim Stopyra passou para Platini, que arriscou um chute. A bola desviou em Girino e enganou Bobby. 1-1.

A equipe poderia ter se abalado com o empate, mas não se assustou. Em uma tabela envolvente, Cabaço deixou Munha livre na área, e ele foi derrubado. Ainda houve a impressão de que ele teria caído sozinho, mas a arbitragem apontou para a marca de cal. Pênalti.

Um princípio de discussão se formou. Normalmente, Besouro bateria o pênalti, mas Zumbi tomou a bola do irmão. Um quiprocó se formou. Besouro queria efetuar a cobrança, mas Zumbi apresentou um argumento irrefutável:

- Não cara, tu não vai bater essa porra. O último flamenguista que bateu pênalti contra a França durante o jogo não funcionou. Deixa eu cobrar, eu sou América.
- Porra…

Não dava para contra-argumentar. Assim, Zumbi ajeitou a bola, respirou fundo e partiu pra cobrança. Bats ainda resvalou na bola, que caprichosamente tocou na trave antes de morrer no fundo das redes. 2-1. Com uma maturidade fora do normal, eles tocaram a bola, cansando o adversário, que era mais experiente, mas não podia contra o sol forte de Ramos e uma equipe determinada.

O apito trilou indicando o fim do jogo. Eles estavam vingados. Até hoje, os jogadores de Ramos juram de pés juntos que derrotaram a temível França de Platini. Não houve testemunhas no bairro vazio, mas ninguém ousa discordar. Naquela sepulcral tarde de sábado, o bairro virou Guadalajara.

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Para conhecer melhor as personagens citadas neste conto, leia  “O Clássico”.

Se quiser saber mais sobre o futebol de Ramos, algumas personagens e jogadores citados, expressões e suas verdades fictícias, leia “Regulamento”“Superstição”, “O Pênalti”“O Professor”“Arena”“O Protesto”“Maldição” “Po锓Cabaço” e  “O Amor na Marca da Cal” 

Gatilho

Não se sabe muito bem como ocorre, mas ocorre. Sem mais nem menos, uma frase perdida no meio de pensamentos, dita com a melhor das intenções – ou não – dispara o gatilho. Na roleta russa emocional, é apenas uma questão de sorte incontrolável saber se há uma bala ali. Clec.

E quando ele é disparado, os pensamentos que estão ali presos, domados e represados se soltam, insolentes, passeando pela alma como se fossem donos e senhores da razão. Dominam todos os movimentos e as reações se tornam imprevisíveis. Uns se flagelam e machucam os seus; outros se calam e sofrem sós; alguns tentam buscar ajuda, mas não conseguem se expressar, e quem consegue se expressar normalmente encontra um muro com uma piada na hora errada em vez de um singelo e simples abraço. Clec.

O pior de tudo é saber que não há culpados nisso. Normalmente é bala perdida que atinge os medos de forma frontal e desperta aquele demônio mais escondido. O kraken que envolve e entristece como se fosse um tentáculo de melancolia sufocando a alma. Clec.

Tudo que se quer é um cafuné, um abraço, um colo, mas isso nunca é encontrado, porque normalmente um gatilho é tratado como besteira, bobagem, mimimi. É assim que funciona a vida cruel, porque o outro normalmente nunca reconhece uma dor, por não saber como o calo alheio aperta. Cada um só sabe de si. É natural que seja assim. Clec.

Assim como é natural que se julguem os sentimentos esparsos com uma ótica mais dura e viril do que seria o próprio autojulgamento. Poucos têm coragem, disponibilidade, indulgência e lealdade de estar ao lado quando se precisa. Há lutas que se lutam sós, mas nem todas são assim. Há aquelas nas quais se precisa de ajuda, e muitas vezes a sensibilidade para oferecê-la quando alguém não consegue pedi-la é tão importante quanto saber não oferecê-la quando não se precisa. Clec.

A verdade é que, quando um gatilho é disparado, não há muito o que ser feito. É uma pequena morte. Sujeita à ressurreições, solidões ou libertações. Quando se está no olho do furacão, tudo que se quer é calmaria. Toda tempestade cansa, às vezes é preciso apenas o nascer do sol. Bum.

Cenas de um Supermercado na Madrugada

Onze e meia da noite. O silêncio é entrecortado por uma música que pretensamente deveria ser lounge mas na verdade varia entre um som muito ruim ou muito bom, com toques de Phil Collins pelo meio. Afinal, Phil Collins é incontestável. Uma noite a mais, outro dia no paraíso. Mentira, é só o supermercado no início da madrugada.

Todos ali são cúmplices. Porque buscam a calmaria e colocam todo o cansaço e frustração de um dia de trabalho no liquidificador daquela terapia que é fazer compras na madrugada. Todos se entreolham complacentes, pois cada um com seu motivo, se sentem protegidos da vida trituradora ali. O esporro que precedeu o silêncio.

Tem aquele que compra as coisas da casa com sua calculadora inseparável, companheira também daquela moça que trabalha checando e comparando preços, como se fosse uma fiscal do Sarney em versão pós-punk. Tem aquela que saiu da ginástica e foi direto pro setor de laticínios e posteriormente vai disputar lugar na fila com a executiva que foi comprar um travesseiro da Nasa, pra ver se cura sua insônia, causada pelo stress e pelas injustiças dos dias das horas justas.

A mãe que aproveita os corredores vazios para ninar seu bebê recém-nascido divide seu espaço com dois faxineiros que lavam o setor de carnes e aproveitam para deslizar pelo piso, emulando o Holiday on Ice e abrindo um sorriso gostoso e sincero. Os casais proibidos, com ou sem aspas, escolhem este horário para andar de mãos dadas sem medo de preconceito ou de serem descobertos. O sorriso sincero de quem ama, seja como for, já diria a elegância de Paulinho.

A indignação do protesto mudo contra o preço do limão, do damasco e do mel, contrastando com a comemoração em aviãozinho daquele que vai comprar a maminha numa promoção daquelas. Ali, naquele microcosmo gelado, oásis no meio da madrugada sem estrelas, um grupo seleto tão díspar quanto cheio de afinidades se encontra.

E como toda regra tem sua exceção, há os insatisfeitos: os caixas, querendo ir para casa, servindo bem para servir sempre, ou melhor, nem sempre, porque é preciso uma folga e madrugada – onde já se viu? – não é lugar para trabalho, ao menos aquele dia, porque eles queriam estar ali, invertidos com aqueles que buscam a terapia das compras, cujo preço é caro, mas pode ser pago à vista, no débito ou crédito.

Duas da manhã. Na fila, aquele momento de redenção, libertação e prisão. Redenção porque a missão finalmente foi cumprida; libertação porque enfim as coisas voltam a seu rumo normal e cotidiano; e, justamente por isso, é uma volta à prisão aberta da vida real. Naqueles minutos que viram horas, a terapia do dia a dia deixa o ser humano mais leve. Talvez a leveza seja uma metáfora para o dinheiro que sai do bolso também. São as cenas de uma madrugada no supermercado. Boa noite. E boa sorte na volta pra casa.

Carrinho

Houve algum momento em sua tenra idade que ele passou a não gostar de carrinhos. Nas lembranças esmaecidas da memória, às vezes vinham flashes de uma estante cheia deles, em modelos de ferro, todos organizados, que depois desmoronava. Não eram pensamentos nostálgicos, eram pesadelos que o atropelavam e o faziam marejar os olhos.

Como tudo que é ruim e não merece ser enfrentado, essa antipatia foi empurrada para debaixo do tapete da alma. Ali, não incomodava a si mesmo. Sem ter de encarar esta dor, vivia bem. Até que teve um filho. Guri, piá, moleque, garoto, maroto, travesso. Conforme chegava a hora de nascer, os presentes se amontoavam, nenhum carrinho.

Até que um grande amigo deu um carro enorme de presente. Uma Ferrari daquelas. Agradeceu imensamente. Guardou com carinho. Era do filho. Se fosse uma bola, já estaria fazendo embaixadinhas, emulando som de torcidas, realizando o voleio de Bebeto e saindo pra comemorar com embala-nenem. Mas o carrinho? Não o tocava, porque evocava aquela estante e logo em seguida, na mente desmoronava.

Seu filho foi crescendo, começou a engatinhar e depois a fincar os pés no chão. Toda vez que o pimpolho olhava um carrinho, brilhava os olhos. Ele percebeu isso. Não há medo que mereça eterna fuga, hora de resolver este problema e tirar a sujeira debaixo do tapete.

Em um sinal vermelho, parou o vendedor. Perguntou quanto era aquele carrinho. “Cinco reais”. Tirou o dinheiro do bolso. “Fica com o troco”. Chegou em casa com o moleque, o colocou no chão e enquanto ele ainda se ajeitava para dar seus pequenos grandes passos, soltou o carrinho também. Ganhou um sorriso em retribuição. E uma língua sapeca no rosto.

E o menino pegou o carrinho e meio desajeitado o mandou de volta para o outro menino, que fez movimento similar. Ali, na linguagem universal da alegria, um acertava contas com o passado, o outro apenas vivia seu presente. Agora, no quarto do guri, há vários carrinhos. E muitas vezes, o menino maior vai lá brincar com eles.