Hiato/Fim

Depois de alguns anos e trezentos e cinquenta textos, chega a hora de encerrar o ciclo do “Cotidiano & Outras Drogas”. Ainda lembro, como se fosse hoje, depois de muita insistência da Cau e do Rossatto, do dia em que comecei a batucar as letras daqui. Muita coisa sobre futebol, sobre filmes e depois atingindo o formato de crônicas e contos.

Aqui prestei homenagem a meus filhos, “fotografei” grandes amigos, celebrei momentos e me expus visceralmente, tentando enfrentar meus próprios demônios. Aqui, meus sorrisos e lágrimas viraram letras. Nada mais natural, inclusive, que o último texto deste blog fosse um auto-retrato da luta contra meus moinhos de vento, como um Dom Quixote com armadura de ferro-velho e seu Rocinante de pé-de-pano. Em minha autocrítica, acredito que os estou vencendo e é hora de fechar alguns ciclos, o C&OD dentre eles. Este espaço começou com um relato sobre futebol  – o Barcelona e a metáfora da vida – e termina com uma fotografia sobre a metáfora da minha própria vida. Um círculo perfeito, como uma bola dente-de-leite nova.

Me orgulho de cada texto que fiz aqui, mesmo os ruins – são maioria. Graças ao “C&OD”, escrevi um pro Zico e ganhei autógrafo em cima dele [orgulhos bobos]. Por causa deste blog, tomei coragem para escrever meu primeiro livro, que sairá em outubro deste ano. Todos os posts publicados continuarão aqui para serem lidos em meio à poeira do cotidiano. Este espaço ainda será usado para divulgação do livro e de outros projetos que porventura apareçam, para que os meus três ou quatro leitores que só me lêem pelo blog saibam por onde minhas letras caminharão. A fanpage do Facebook também continuará ativa.

A decisão não foi nem um pouco dura – muito serena, aliás. Aos meus três ou quatros amigos leitores, responsáveis pelas sessenta e uma mil visualizações daqui, meu agradecimento. Quem sabe futuramente saia um livro com algumas das coisas daqui, ou uma das séries, como os “Diários da Cafajestagem” – tudo começou em La Bombonera [obrigado, Guillermo] – ou o “Futebol de Ramos e Outras Histórias”. Exatos trezentos e cinquenta textos depois, é hora de dar tchau. Tudo a seu tempo. O cotidiano continua a rodar. As outras drogas também. Obrigado pela companhia.

[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Último Capítulo

O último capítulo da saga suburbana pode ser lido aqui

Moinhos de Vento

Uma andorinha só não faz verão. Por isso são recrutados aliados reais e construídos inimigos imaginários, como sparrings, antes de lutar contra os reais, quando houver tempo e/ou coragem. Como num romance de cavalaria, andante, errante. Contra tudo, contra todos, o contrário, contra quem?

Cada um é como Deus fez, às vezes muito pior. Os moinhos de vento que prenunciam os furacões interiores sopram fortes, valentes e imponentes. Os temores com os quais se andam, os temores que dizem quem são seus portadores. A caravana da vitimização que muitas vezes parte barulhenta, em contraponto ao comboio silencioso da vilanização. Melhor caminhar com o sapato das dores e delícias de ser o que é.

Há um momento, entretanto, em que os moinhos se calam e outras histórias se contam. Por quem os sinos vão dobrar? Do rosário de pecados que habitam a armadura de rancor e insegurança, entre a soberba e a ingratidão, a guerra e a confusão mostram os inimigos reais e os aliados imaginários.

Cada um é filho de suas obras e não há livro da vida tão ruim que não tenha algo bom. Não há quem saiba mais dos erros e acertos do que o espelho, o mais poderoso juiz e censor. Enquanto ele não é confrontado, que se esperem os sinos e se enfrentem os moinhos de vento, acompanhado da voz da consciência, que algumas vezes é muda, e em outras fingimos não ouvir. Somos todos Dom Quixote.

[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 6

O penúltimo capítulo da webssérie você lê aqui

[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 5

E tem mais um capítulo da webssérie aqui!

[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 4

Leia aqui mais um capítulo da trama.

O Quarto Árbitro

Ele havia tentado ser jogador de futebol, mas não conseguiu. Tentou a peneira do Flamengo, mas como jogador era um pato. Não aquele Pato, mas a ave. Passava, corria, cruzava, cabeçeava, marcava e chutava, mas não fazia nada direito. Assim, depois de três reprovações, decidiu abreviar sua inexistente carreira.

Mas o gosto pelos esportes nunca se esvaiu. Entrou em um curso de arbitragem. Aluno aplicado, ia bem, sendo aprovado com louvor. Começou a apitar partidas da terceira divisão do Campeonato Carioca, até que subiu para a Segunda Divisão. Em um desses sorteios da vida, foi escalado como quarto árbitro em uma partida do Flamengo, no Maracanã.

Naquela quarta-feira à noite, realizaria seu sonho. Estrear na primeirona, justamente em um jogo do Fla. O adversário era um time pequeno, certamente seria uma goleada, tudo daria certo. Seu time do coração entrou em campo com a terceira camisa. “Puta que pariu, terceira camisa, isso nunca dá certo!”. Entrou em campo antes do jogo, fez o reconhecimento do gramado, a oração com o trio de arbitragem. As equipes subiram ao gramado, o árbitro trilou o apito.

Com menos de dez minutos de jogo, o Flamengo já perdia por dois a zero. “Maldita terceira camisa!”. Ele estava indignado. Não acreditava naquilo. Era seu momento e o Mais Querido estava cagando tudo. Queria fazer algo, mas não sabia o que. Vinte minutos de jogo e o técnico chama para o aquecimento o Camisa 23.

“Porra, o 23? O professor está de sacanagem!”

Mais uns dois minutos e o treinador manda o recado para ele subir a plaquinha:

“Entra o 23, sai o 9!”

“Porra, tirar o 9?! Assim não vamos ganhar nunca!”

Ele teve uma idéia. Estava ali com a placa. Poderia mudar o destino. Se virou para o treinador e balbuciou:

“Não vou subir a plaquinha. Tu tá maluco, o 9 é o cara dos gols, tira o 11 que tá morto em campo!”

“Vai tomar no cu, moleque. Quem é o técnico aqui sou eu!”

“Mas eu tenho a plaquinha, tiro quem eu quiser…”

“Não fode!”

Ato contínuo, chamou o juiz pelo rádio. O apitador chegou à beira do campo:

“O treinador me xingou!”

O juizão não teve dúvidas e expulsou o técnico, que saiu desesperado, chutando tudo. O treinador do time adversário gargalhava. Ele chamou o árbitro de novo e informou da situação. Mais um expulso. Enquanto o outro professor saía indignado, ele chamou o número 23.

“Cara, você vai entrar no lugar do 11.”

“Ahn?!”

“É, porra! No lugar do 11. Vai lá!”

Subiu a plaquinha. Entra o 23, sai o 11. No primeiro curzamento do número 23, gol do número 9. Esboçou comemorar, mas guardou para si a vibração. Mais cinco minutos, chamou o número 17:

“Garoto, você é bom de bola, vão entrar você e o número 26, agora!”

Dito e feito: entraram os números 17 e 26 e saíram os números 8 e 6. Uma alteração ousada, mas no fim do primeiro tempo, numa tabelinha entre os dois, o Flamengo empatou o jogo. A torcida começou a cantar junto, já não era mais inacreditável, era possível vencer. No intervalo, antes de descer, o número 23 veio agradecê-lo e ele mandou um recado:

“Avisa ao professor que é pra trocar essa maldita terceira camisa!”

Na volta para o segundo tempo, com o uniforme titular, o Flamengo amassou o adversário. Envolvente, malemolente, mas a bola teimava em não entrar. Até que, faltando cinco minutos para o fim da partida, um cruzamento do número 17 encontrou o número 9, que finalizou sem chances para o goleiro. 3-2. Festa nas arquibancadas. Ele queria, mas não podia comemorar. O juiz apitou o fim do jogo.

Na saída para o vestiário, olhares gratos dos jogadores que entraram em campo. Ele já imaginava o escândalo nas entrevistas coletivas. O treinador do Flamengo, entretanto, disse que eram coisas de jogo, que a arbitragem é assim mesmo, enquanto o outro técnico não entendia sua expulsão e achava que tinha influído no resultado. “Culpa da Federação”, esbravejou.

Naquele dia, ao chegar em casa, ele decidiu não seguir carreira na arbitragem, por não saber controlar seus impulsos. Tempos depois, o treinador do Flamengo lhe procurou e ofereceu uma vaga como auxiliar do seu clube de coração, pois tinha lugar para ele no projeto. E até hoje ele é consultado na hora das substituições.

[OFF] Dezena, Centena, Milhar – Capítulo 3

Mais um capítulo da webssérie. Segura a marimba! E clique aqui pra ler!

[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 2

Mais um capítulo da webssérie. Clique aqui para ler!

[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 1

Anos 2000, Baixada Fluminense. Policiais se deparam com um crime envolvendo um famoso contraventor, ocorrido em pleno ensaio de uma das escolas de samba mais famosas do Rio de Janeiro. “Dezena, Centena e Milhar” mostra como a equipe de “Amém” é formada, enquanto resolvem um intrigante caso que mistura jogo, sentimento, batucada e poder. Esta série é gratuita, alimentada por volta de 15 em 15 dias, até o seu final. “Amém” será lançado em meados de outubro, pelo selo Orago, da Editora 5W.

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