[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 4

Leia aqui mais um capítulo da trama.

O Quarto Árbitro

Ele havia tentado ser jogador de futebol, mas não conseguiu. Tentou a peneira do Flamengo, mas como jogador era um pato. Não aquele Pato, mas a ave. Passava, corria, cruzava, cabeçeava, marcava e chutava, mas não fazia nada direito. Assim, depois de três reprovações, decidiu abreviar sua inexistente carreira.

Mas o gosto pelos esportes nunca se esvaiu. Entrou em um curso de arbitragem. Aluno aplicado, ia bem, sendo aprovado com louvor. Começou a apitar partidas da terceira divisão do Campeonato Carioca, até que subiu para a Segunda Divisão. Em um desses sorteios da vida, foi escalado como quarto árbitro em uma partida do Flamengo, no Maracanã.

Naquela quarta-feira à noite, realizaria seu sonho. Estrear na primeirona, justamente em um jogo do Fla. O adversário era um time pequeno, certamente seria uma goleada, tudo daria certo. Seu time do coração entrou em campo com a terceira camisa. “Puta que pariu, terceira camisa, isso nunca dá certo!”. Entrou em campo antes do jogo, fez o reconhecimento do gramado, a oração com o trio de arbitragem. As equipes subiram ao gramado, o árbitro trilou o apito.

Com menos de dez minutos de jogo, o Flamengo já perdia por dois a zero. “Maldita terceira camisa!”. Ele estava indignado. Não acreditava naquilo. Era seu momento e o Mais Querido estava cagando tudo. Queria fazer algo, mas não sabia o que. Vinte minutos de jogo e o técnico chama para o aquecimento o Camisa 23.

“Porra, o 23? O professor está de sacanagem!”

Mais uns dois minutos e o treinador manda o recado para ele subir a plaquinha:

“Entra o 23, sai o 9!”

“Porra, tirar o 9?! Assim não vamos ganhar nunca!”

Ele teve uma idéia. Estava ali com a placa. Poderia mudar o destino. Se virou para o treinador e balbuciou:

“Não vou subir a plaquinha. Tu tá maluco, o 9 é o cara dos gols, tira o 11 que tá morto em campo!”

“Vai tomar no cu, moleque. Quem é o técnico aqui sou eu!”

“Mas eu tenho a plaquinha, tiro quem eu quiser…”

“Não fode!”

Ato contínuo, chamou o juiz pelo rádio. O apitador chegou à beira do campo:

“O treinador me xingou!”

O juizão não teve dúvidas e expulsou o técnico, que saiu desesperado, chutando tudo. O treinador do time adversário gargalhava. Ele chamou o árbitro de novo e informou da situação. Mais um expulso. Enquanto o outro professor saía indignado, ele chamou o número 23.

“Cara, você vai entrar no lugar do 11.”

“Ahn?!”

“É, porra! No lugar do 11. Vai lá!”

Subiu a plaquinha. Entra o 23, sai o 11. No primeiro curzamento do número 23, gol do número 9. Esboçou comemorar, mas guardou para si a vibração. Mais cinco minutos, chamou o número 17:

“Garoto, você é bom de bola, vão entrar você e o número 26, agora!”

Dito e feito: entraram os números 17 e 26 e saíram os números 8 e 6. Uma alteração ousada, mas no fim do primeiro tempo, numa tabelinha entre os dois, o Flamengo empatou o jogo. A torcida começou a cantar junto, já não era mais inacreditável, era possível vencer. No intervalo, antes de descer, o número 23 veio agradecê-lo e ele mandou um recado:

“Avisa ao professor que é pra trocar essa maldita terceira camisa!”

Na volta para o segundo tempo, com o uniforme titular, o Flamengo amassou o adversário. Envolvente, malemolente, mas a bola teimava em não entrar. Até que, faltando cinco minutos para o fim da partida, um cruzamento do número 17 encontrou o número 9, que finalizou sem chances para o goleiro. 3-2. Festa nas arquibancadas. Ele queria, mas não podia comemorar. O juiz apitou o fim do jogo.

Na saída para o vestiário, olhares gratos dos jogadores que entraram em campo. Ele já imaginava o escândalo nas entrevistas coletivas. O treinador do Flamengo, entretanto, disse que eram coisas de jogo, que a arbitragem é assim mesmo, enquanto o outro técnico não entendia sua expulsão e achava que tinha influído no resultado. “Culpa da Federação”, esbravejou.

Naquele dia, ao chegar em casa, ele decidiu não seguir carreira na arbitragem, por não saber controlar seus impulsos. Tempos depois, o treinador do Flamengo lhe procurou e ofereceu uma vaga como auxiliar do seu clube de coração, pois tinha lugar para ele no projeto. E até hoje ele é consultado na hora das substituições.

[OFF] Dezena, Centena, Milhar – Capítulo 3

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[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 2

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[OFF] Dezena, Centena e Milhar – Capítulo 1

Anos 2000, Baixada Fluminense. Policiais se deparam com um crime envolvendo um famoso contraventor, ocorrido em pleno ensaio de uma das escolas de samba mais famosas do Rio de Janeiro. “Dezena, Centena e Milhar” mostra como a equipe de “Amém” é formada, enquanto resolvem um intrigante caso que mistura jogo, sentimento, batucada e poder. Esta série é gratuita, alimentada por volta de 15 em 15 dias, até o seu final. “Amém” será lançado em meados de outubro, pelo selo Orago, da Editora 5W.

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Goleiros

Embora todo mundo queira fazer gols como atacantes, distribuir o jogo como meio-campistas e, nos momentos mais libertadores, dar um bico para o alto, como um zagueiro-zagueiro, a verdade inexorável é que todos somos goleiros. Sim, todos somos solitários como o guarda-redes.

Na pequena área de nossa própria consciência, onde a grama não nasce, estamos isolados, vendo o jogo se desenrolar. Naqueles minutos onde se joga a partida do destino, muitas vezes somos acionados. E fazemos defesas espetaculares, salvamos bolas impossíveis, somos lembrados como craques, reverenciados como estrelas, até que falhamos.

Falhamos miseravelmente. Aquela bola entre as pernas, o montinho artilheiro, o golpe de vista mal dado, que nos fazem sentir vergonha de nós mesmos. Já não bastavam aqueles chutes onde a coruja dorme, indefensáveis, que temos de engolir e aceitar. Os piores momentos são aqueles defensáveis. E aí toda aquela mística cai por terra.

Naqueles momentos onde a solidão se acentua e nós estamos ali, estirados, olhando para a rede. Levantamos e todo o time balança a cabeça negativamente. Quer dizer, todos, não. Ainda há os mais desesperados, que colocam a mão na cabeça. E uns poucos dão aquele tapa nas costas, dizem “levanta!”. E nós, goleiros de nosso próprio jogo, levantamos. Não há outro jeito

A verdade é que poucos nesta vida serão chamados de mito, com aquela moral toda e os defeitos sendo travestidos de perfeccionismo. Outros tantos terão um apelido pomposo juntando substantivo e adjetivo, como “tanque malaio”, “danúbio  azul”, “aranha negra” ou algo do tipo. Surgirão aqueles que terão seu nome gritado com um apelido não-pejorativo, como “puta que pariu”. Ainda haverá uns escolhidos entre nós que terão nome de santo – e querem o nome mais bonito. Talvez seja preciso amar os goleiros como se não houvesse amanhã.

Há aqueles que pegam todas as bolas impossíveis, mas deixam passar as possíveis. Clemência. Alguns não aguentam encarar o problema, qualquer que seja ele e preferem se atirar nos trilhos de trem da vida; outros preferem matar e enterrar o que julgam ser dificuldade, para depois enfrentar as graves conseqüências. Cada um com sua escolha, sua trilha, seu caminho, seu vaticínio.

Quando o cronômetro começa a correr, a verdade é que é preciso evitar todos os gols possíveis, assimilar os impossíveis e saber se perdoar quando falhar. A falha, assim como a morte, é inevitável. Então, embora seja necessário lamentar, não se pode transformar o lamúrio em canção de uma nota só. È preciso seguir até o apito final, porque de onde surge o vacilo também brota a redenção. O jogo é jogado. E todos somos goleiros em nossa vida.

O Sustentável Peso de Ser

A vida não é fácil. Entretanto, na maioria das vezes, ela é inocente. Em grande parte dos casos a dificuldade parte de fora pra dentro, descontados os casos fortuitos e de força maior. Normalmente as decisões, escolhas e caminhos são guiadas justamente por aquele que sofrerá as consequências e colherá os ônus e bonus do processo.

“Ônus e bonus”. Heranças da malfadada linguagem corporativa, que migraram e se aboletaram como pardais nas gôndolas de auto-ajuda, como inexoráveis clichês. A expressão tem o poder de sintetizar um monte de sensações e suas nuances, as prensando para consumo rápido e sem argumentação. Talvez seja melhor assim. Talvez.

No jogo de cartas marcadas entre o ser humano e sua personalidade, cujo espelho invisível da autocrítica é o tabuleiro, muitas vezes é necessário se reinventar, ser coringa e canastra suja de si mesmo. A vida não é pôquer, tudo ou nada; tampouco é sueca, onde se pode embarcar na melhor opção e lançar trunfos de vez em quando. A vida blefa, grita, silencia, combina, trapaceia. Truco.

Se tem esperança de que? De um caminho leve, sem percalços, com a brisa inocente perfumada com flores do campo e a voz jovial do locutor anunciando um comercial de desodorante ou de margarina. O caminho normalmente não é assim. Não é uma estrada sem destino e sem nome, na qual se acelera e se ouve Lynyrd Skynyrd no rádio. Normalmente há buracos, atribulações e acidentes, alguns letais, nos quais romances, lembranças e expectativas jazem mortas no chão.

Se tem esperança de? De superar, de ganhar destreza dirigindo o próprio veículo que é o destino. Porém, ser motorista de si mesmo necessita de revisão, habilidade, cuidado e, mesmo assim, há a possibilidade ser surpreendido pelas mudanças climáticas das relações interpessoais ou com seu próprio ego. Não existe pista mais desafiadora do que nossa própria idiossincrasia. Eau Rouge. Se tem esperança?

Há momentos em que sentar no chão e olhar para o teto, mirando o nada, é a melhor solução. Outras vezes, a sensação de sufocamento é tamanha que a impressão é de queda livre, sem saber onde é o chão de nossa própria angústia. A verdade é que ser parece insustentável, mas não é. E se o filósofo grego diferenciava a leveza e o peso, este sendo ausência daquela, se enganou redondamente.

Leveza e peso andam de mãos dadas, como namorados existenciais. Muitas vezes, por convenção ou auto-imposição, há a necessidade e/ou vontade de ser leve, flutuar, andar em paz. No fim das contas, por maturidade ou por não haver opção, se convive com a dor, com os espinhos, como se eles tatuassem a alma para que finalmente se pudesse desnudar a leveza. Não existe o caminho da verdade; apenas caminhos, de verdade.

A leveza do ser talvez seja insustentável, mas o peso de ser é perfeitamente sustentável. É preciso conhecer, se
reconhecer, seguir em frente. O espetáculo do próprio sofrimento precisa apenas de uma pessoa na platéia: de si mesmo. Para que a mariposa do peso se torne a borboleta da leveza. Para que se siga em frente. Respira.

O Povoado

Aquele barulho diferente e um sacolejo mais insinuante que a nova passista globeleza. O pneu furou. O pneu, no caso, era de uma caminhonete. Furou, no caso, na margem da BR-116, a poucas horas do pôr-do-sol. Ao olhar para o lado esquerdo, apenas o horizonte. Ao olhar para o lado direito, um povoado simples.

Simples, mas prestativo. Encostando o veículo à procura de um borracheiro. Para um sujeito, cara de camponês, gente da pele curtida pelo sol. Eloquente, se dispõe a ajudar e chama o borracheiro, “o melhor da região”, ele diz. E o profissional chega lá e analisa o que houve. E era um furo grande, e precisava vulcanizar, e demoraria uma hora, talvez duas. Preço combinado, tudo certo. Um vai, outro fica ao lado do veículo.

Carro fechado, naquele pequeno povoado, hora de observar ao redor. Uma parada de ônibus com um pequeno logotipo onde se lia “Beberibe, eu te amo”, para proteger do sol os que precisam se locomover. Ao fim da tarde, ali, isolado, aparentemente não há muito o que fazer. Sinal de telefone, inclusive, não há.

Sem internet ou dados, a sensação é de solidão? Ledo engano. O camponês que buscou o borracheiro se apresenta, conta da formação técnica em mecânica, e que gosta de se embrenhar naquele local que mistura caatinga com litoral com pouquíssimos quilômetros de distância.

Logo chega mais um habitante, que conta que nos tempos dos avós tinha muita onça parda por ali. Sim, suçuaranas. E que hoje sumiram, mas ainda tem um tipo de cervo, algumas jararacas, as cascavéis já estão quase extintas.

E ali, atrás do povoado, tem um açude, onde implantaram tilápias e tucunarés, que se adaptaram bem, mas brigam muito, porque tucunarés são territorialistas e matam as tilápias. E ainda dificultam a pescaria, porque são inteligentes ao extremo.

Há uma igreja no meio da praça. Talvez seja uma capela. A falta de catolicismo impede saber a diferença entre uma e outra, mas é uma construção linda, parece uma casa de bonecas, com um santo em sua entrada. E um espaço para os guris, aproveitando que o sol está terminando o expediente, começarem a armar o futebol.

E um deles, o mais loquaz, olha e diz: “moço, vamos jogar bola?”, tirando um sorriso daqueles do fundo da alma e dando uma vontade quase incontrolável de dobrar as calças, tirar o sapato social e assumir uma das posições daquela pelada.

Ao mesmo tempo, jovens se reúnem na frente do povoado, mas não é nenhum motivo religioso ou festa na cidade. Estão esperando o ônibus para estudar. E não, não é colégio ou supletivo. É faculdade, na cidade ali perto. Alguns fazem direito, outros pedagogia e ali falam dos sonhos e contam que criaram um grupo de whats app. Mas como, se não há sinal telefônico? Rádio, wi-fi, modernidades.

E oferecem a senha da rede para ver os emails e passar recados. Mas não, não é preciso. Estar desconectado naquela hora é excelente. Esquecer o mundo para lembrar de si. E informam que naquela casinha azul vende sorvete artesanal. E o preço é baratinho. E tem de nata goiaba, uma combinação tão deliciosa e improvável quanto caatinga e litoral, com nacos de goiabada em meio à nata. Sabor que fica na memória.

O por do sol se aproxima pelas margens da BR-116, preguiçosamente, mesclando-se com a luz dos faróis dos veículos que rasgam aquela estrada. O tempo passa rápido e já vem o borracheiro com o pneu consertado – “muito trabalho, teve que vulcanizar” .

Enquanto ele coloca o pneu de volta, as despedidas, como se fossem velhos conhecidos. Promessas de um dia passar por lá de novo e comer um tucunaré no restaurante da moça, que por sinal é irmã do borracheiro, que namora com o cara que falou das suçuaranas, e ali todo mundo se conhece.

E naquele momento, conhecer aos outros é reconhecer a si mesmo. Agora entendo a mensagem da parada de ônibus.

Enquanto Vocês Dormem

Enquanto vocês dormem, eu penso. Penso no futuro de vocês. Qual caminho vão seguir? Uma quase entrando na vida adulta, outro começando a dar os primeiros passos. Onde o destino vai lhes levar? E como vocês vão moldar o destino?

Enquanto vocês dormem, tenho dúvidas, me arrependo, renovo as certezas, ergo a cabeça, choro e sorrio. Ser por vocês é ser por mim, e nunca é obrigação, apenas prazer e aprendizado. Aprender com prazer é uma dádiva, basta humildade, discernimento e boa vontade.

Enquanto vocês dormem, aprendo receitas de papinhas nutritivas, leio sobre equações de segundo grau ou funções, atualizo a conta do Netflix – “pô, não tá rodando” – e faço planos mais ou menos mirabolantes para realizá-los quando vocês acordarem.

Enquanto vocês dormem, me sinto protegido, os dois se combinam em uma defesa inexpugnável: capa e espada, tática e estratégia, amor e cuidado, sorriso e abraço. É o que move, onde posso tirar a armadura e descansar com serenidade.

Enquanto vocês dormem, o presente e o futuro se entrelaçam. Ser mais eu, para ser vocês. E eu fico divagando sobre inúmeras coisas que só fazem sentido pra mim, porque vocês descansam, me dando uma imensa sensação de missão cumprida em mais um dia nesta indústria vital. E nesse semblante terno e plácido, encontro meu repouso. Shhhh, vocês dormem.

Enquanto vocês dormem, eu sou paz. E quando vocês acordam, sou também. Com vocês, tudo é pleno.

Danse Macabre

Não existe nada mais efêmero que a eternidade. A alegoria e o adereço de estar sempre buscando um caminho eterno de glória e felicidade, visando o melhor para si e outrem é apenas uma maneira de imaginar rosas entre os espinhos.

Mas não que isso traga um tom de desesperança ou amargura, longe disso. O caminho, por si só, é tão divertido quanto difícil. As decisões que separam crianças de adultos devem ser tomadas com toda a carga que possuem. A alquimia que transforma medo em coragem é um segredo tão bem guardado quando fazer chumbo virar ouro, mas ocorre involuntariamente, quando a necessidade se faz presente.

Na busca silenciosa por um trajeto menos sinuoso e tortuoso, tudo influi, como um efeito borboleta. Muitas vezes, entretanto, mariposas se mostram borboletas no caminho, teimando em rodear a luz alheia, se alimentando da sinalização, para se manter em evidência e fatalmente queimando as asas e caindo sós ao tempo da queimadura. Não há vôo que se sustente sem brilho próprio.

Mesmo com as intempéries e as tormentas silenciosas, internas e externas, desfilando pelo tribunal social que julga e muitas vezes não tem coragem de sentenciar cara a cara, preferindo proferir despachos em forma de murmúrios, há sempre a certeza de que na próxima curva haverá novas possibilidades e essa expectativa alimenta a alma.

Se vive sempre em uma dança macabra rumo aos próprios túmulos. E são muitas sepulturas na vida, enterrando momentos, destinos, sonhos, convicções. Refazendo caminhos, ressuscitando esperanças. No baralho do destino, há sempre espaço para renovação. A carta é XIII.