Fênix

Ela quer acordar do pesadelo. Abrir os olhos e não enxergar mais o fantasma rondando sua alma. Ela quer retomar o prazer das manhãs de céu azul, dos pincéis em tom vibrante que percorrem as telas de pintura e do seu destino.

Ela não quer mais se julgar. Sabe que é inocente, mas ainda assim às vezes sente culpa. E raiva. E ódio. E desejo de vingança. E mágoa, que é necessária para seguir em frente. É combustível para recomeçar.

Ela quer andar sem receio, sem olhar para trás, sem se preocupar com as formas e tamanhos do seu vestido. Quer tomar um banho de chuva para lavar a alma e escorrer toda a tristeza pelos poros em um dia quente de verão.

Às vezes ela corre, noutras ela se arrasta, mas sempre sabe que em alguns passos vai voltar a andar. Normalmente. De cabeça erguida, para se reinventar e retomar seus sonhos, porque se há algo que ninguém jamais consegue dominar são as rédeas de sua vida.

Não há tempestade que dure para sempre e não há esqueleto que não saia do armário. Ela espera o nascer do sol para renascer. Ela não quer ser fênix. Ela é.

Labirinto

Ela só queria sair do labirinto que estava dentro da sua cabeça e atravessava o vale do seu coração. Queria saber o final feliz do filme, o preço do vôo pra Barbados, onde podia escutar aquela música do B.B. King, pra entender que a ameaça se foi.

Ela queria ter certeza. Desatar os nós, esquecer as dúvidas, caminhar em paz, molhar os pés no mar de tranquilidade. Queria mergulhar na alegria e esquecer as ondas de insegurança. Sentir o vento na cara no meio de uma estrada a 150 quilômetros por hora, sem o coração incendiar.

Ela queria a linha reta. O firme, o forte, o certo. Ela queria o frio das borboletas no estômago, mas esquecia que as borboletas voam, de forma descoordenada e sem direção. Ela queria guardar a ansiedade no bolso de uma calça dentro da máquina de lavar e viver sem saber onde terminava a paz e começava a calma.

Ela queria o sossego, mesmo que ele fosse o desassossego. O caminho pelo descaminho, o jogo de palavras bonitas e simples do olhar silente. Ela queria o conforto de uma intuição segura.

Ela quer a si mesma. Ela não quer mais o ontem, só o hoje e o amanhã. Ela quer futuro e redescobrir que o prazer das coisas está no imprevisível. Ela quer se sentir à vontade no imprevisível, porque o labirinto nunca tem fim.

A dúvida é o preço da pureza

“Será que vai dar certo?” A pergunta que sempre rodeia os pensamentos. O combustível que alimenta o monstro da insegurança. A dúvida. Se há futuro, se há verdade, se há o sim, o não, talvez, que alimentam, como escreveu o grande filósofo, o Lucien que há dentro de nós.

“O silêncio é a música mais difícil”. Outro filósofo, das percussões, valorizava o silêncio para aprender a fazer barulho. O silêncio que conforta e ajuda a entender as centenas de vozes que teimam em falar ao mesmo tempo. Na placidez do nada absoluto, se faz o som mais potente, uníssono.

Não importa o quanto se escreva, pense, racionalize. O cérebro sussurra quando o coração grita; ele só fala alto quando sente o sangue bombear de forma preguiçosa, triste, amuada. A razão, sensata que é, aprendeu que é mais fácil aliar-se à emoção do que comprar uma desgastante briga. Tudo funciona melhor quando eles estão lado a lado.

A dúvida é o preço da pureza, mas é preciso às vezes ter certeza. Mesmo que se esteja errado. É melhor ser impuro e feliz do que ser puro e infeliz. Mesmo que por alguns momentos. Mesmo que os momentos sejam eternos enquanto durem. Mas este já é outro tipo de filósofo…

 

Invasões Bárbaras

Autoconhecimento. A palavra é linda; o significado, espinhoso. A viagem dentro de si mesmo reserva surpresas desagradáveis e descobertas que de tão óbvias dão todo um novo sentido à vida. Não existem atalhos, só caminhos, descaminhos e, às vezes, alguns calvários íntimos.

É como se deixássemos de dançar o dramático tango de compassos marcados e melodias lamuriosas para se aventurar em um samba descompassado, onde o improviso é de extrema valia para fugir da coreografia do desânimo. É encarar de frente os piores demônios que nada mais são que os reflexos do espelho.

E o medo, claro, o medo maior é o espelho se quebrar, como na melodia famosa do menestrel. É se desconhecer no processo de reconhecimento, provar o fel do arrependimento, desconstruir certezas, reafirmar dúvidas e encontrar a zona de desconforto para elevar o espírito, como um faquir.

Se desarmar do suicídio diário da personalidade e matar o que te mata: a angústia, o sofrimento, a ansiedade. É deixar autocomiseração de lado e desafiar os limites da indulgência e da culpa, que são inúteis. É sacudir a poeira debaixo do tapete e limpar a casa da alma para receber alguém.

Autoconhecimento. A palavra é bonita; o significado, cruel. A água mole do aprendizado na pedra dura do orgulho. É se achar depois de cansar de se perder. Construir na destruição e destruir as estruturas podres. A invasão bárbara de si mesmo.

A besta chamada ansiedade

Difícil conviver com um dos grandes males do humano moderno, a besta interna chamada ansiedade. Se a tristeza é o mal do peito, a ansiedade é a algema da alma. Ela expulsa a quietude e o conforto da solidão e nos acompanha como se fosse uma relação doentia, descontrolada e abusiva.

Há esperanças em se ter muitas coisas, mas o tempo ensina que o melhor do seu dia é uma noite tranquila. A combinação explosiva entre desejo, angústia e vontade se reúne em um cérbero emocional que faz de refém toda a alegria das pequenas coisas.

É preciso viver o presente, é preciso guardar o passado e é preciso sonhar o futuro. A ansiedade impede isso. São sempre as variáveis, as equações, o “se”, o “talvez”, tudo aquilo que não faz sair do lugar. A ansiedade é a saudade do futuro do pretérito.

 Se libertar das amarras invisíveis que este sentimento impõe é um dos maiores exercícios que o ser humano pode fazer. Só mais uma vez, um passo de cada vez, só por hoje. Não se mata a besta, mas é possível domá-la.

A gente se acostuma

“A gente se acostuma”. Esta é uma frase dita de forma vulgar várias vezes durante a vida. Vamos nos acostumando com tudo, deixando as coisas passarem no ritmo incessante do relógio do tempo.

A gente se acostuma com o nascer do sol dos dias de primavera e com o por do sol dos dias de verão, com os mergulhos em praias paradisíacas e trilhas na montanha desafiadora, com o barulho da chuva que conforta e relaxa e com o vento gostoso no nosso rosto, até tudo virar saudade.

A gente se acostuma com os grandes amores e os desamores, os afetos e desafetos, os amigos que se perdem na beira do caminho, os que não eram tão amigos assim, com o perdão e o orgulho, com os sim e os não, com os sorrisos mais bonitos e as lágrimas mais doídas, até qeu tudo vire nostalgia, arrependimento ou um álbum de retratos.

A gente se acostuma com as pequenas vitórias a ponto de não comemorá-las mais, com um sorriso amarelo por mais uma meta batida, e com as grandes derrotas, aquelas que nos derrubam com violência, até pensar simplesmente que a tempestade vai passar e que a noite não dura para sempre.

A gente se acostuma com as quedas e os golpes da vida: o martelo cruzado, o rabo de arraia, o ippon, o yuko, o wazari e até mesmo o koka, que não existe mais no judô. Tomba, lambe as feridas, sacode a poeira.

Mas a gente nunca se acostuma a levantar. Cada vez que se levanta é uma cicatriz diferente. Algumas perfeitas, outras com pus, mas que ficam marcadas na alma como tatuagem e viram troféus ou traumas, quando não são os dois ao mesmo tempo.

E aí, quando a gente se acostuma a viver no automático, a ter mais preocupação do que esperança, mais tristeza do que alegria, porque não reconhece os momentos felizes, a gente lembra que não se acostuma a se acostumar. È neste momento que a gente deixa de duvidar da gente. E volta a lutar.

Correnteza

Nada.

Ele nada naquele mar que muda de cor conforme o reflexo do céu e o fundo de areia. Do mais límpido azul ao chumbo mais turvo. A sabedoria ensina que não se deve enfrentar as ondas. Os arrogantes têm a sentença decretada pela imensidão líquida e ela não costuma dar segundas chances.

Respira.

Prudência é mais do que necessário quando se está nas águas. Em tempos de marola ou em ondas tormentosas, é preciso nadar. “Continue a nadar”. A frase é simples e prosaica, mas faz bastante sentido, principalmente no momento e movimento das marés. Cheias ou baixas, ao capricho da lua, indicam os caminhos ou a falta deles.

Cansa.

Muitas vezes o mar puxa para um caminho completamente diferente. Não se deve enfrentar as ondas, a lição é navegar com elas – ou apesar delas. O confronto só desgasta e desperdiça energia. Paciência é necessária para sair das ressacas, mesmo quando parecem intransponíveis.

Bóia

Quando os braços extenuam e nada mais parece funcionar, é necessário boiar. Recobrar um mínimo de forças para não perder o prumo. O corpo é barco, vela e vento, é o que se tem e o que se pode contar. A correnteza é um inimigo tão poderoso quanto pode ser aliado. É preciso decifrar suas entrelinhas.

Mergulha

Mergulha e volta, aproveita a corrente, pega o jacaré. De peito aberto, sem se afogar. A distância da terra firme é uma variável que depende muito do fôlego e da vontade de sair do mar. Respira, cansa, bóia e mergulha.

E nada.

Por tudo. E por nada.

Amém – Datas de Lançamento

Datas de lançamento de "Amém", o livro.

Datas de lançamento de “Amém”, o livro.

Hiato/Fim

Depois de alguns anos e trezentos e cinquenta textos, chega a hora de encerrar o ciclo do “Cotidiano & Outras Drogas”. Ainda lembro, como se fosse hoje, depois de muita insistência da Cau e do Rossatto, do dia em que comecei a batucar as letras daqui. Muita coisa sobre futebol, sobre filmes e depois atingindo o formato de crônicas e contos.

Aqui prestei homenagem a meus filhos, “fotografei” grandes amigos, celebrei momentos e me expus visceralmente, tentando enfrentar meus próprios demônios. Aqui, meus sorrisos e lágrimas viraram letras. Nada mais natural, inclusive, que o último texto deste blog fosse um auto-retrato da luta contra meus moinhos de vento, como um Dom Quixote com armadura de ferro-velho e seu Rocinante de pé-de-pano. Em minha autocrítica, acredito que os estou vencendo e é hora de fechar alguns ciclos, o C&OD dentre eles. Este espaço começou com um relato sobre futebol  – o Barcelona e a metáfora da vida – e termina com uma fotografia sobre a metáfora da minha própria vida. Um círculo perfeito, como uma bola dente-de-leite nova.

Me orgulho de cada texto que fiz aqui, mesmo os ruins – são maioria. Graças ao “C&OD”, escrevi um pro Zico e ganhei autógrafo em cima dele [orgulhos bobos]. Por causa deste blog, tomei coragem para escrever meu primeiro livro, que sairá em outubro deste ano. Todos os posts publicados continuarão aqui para serem lidos em meio à poeira do cotidiano. Este espaço ainda será usado para divulgação do livro e de outros projetos que porventura apareçam, para que os meus três ou quatro leitores que só me lêem pelo blog saibam por onde minhas letras caminharão. A fanpage do Facebook também continuará ativa.

A decisão não foi nem um pouco dura – muito serena, aliás. Aos meus três ou quatros amigos leitores, responsáveis pelas sessenta e uma mil visualizações daqui, meu agradecimento. Quem sabe futuramente saia um livro com algumas das coisas daqui, ou uma das séries, como os “Diários da Cafajestagem” – tudo começou em La Bombonera [obrigado, Guillermo] – ou o “Futebol de Ramos e Outras Histórias”. Exatos trezentos e cinquenta textos depois, é hora de dar tchau. Tudo a seu tempo. O cotidiano continua a rodar. As outras drogas também. Obrigado pela companhia.