A Fotografia Que Não Existiu [repost]

Foi acordado às 7 da manhã de um dia turvo, nublado. Apavorada do outro lado da linha, sua namorada de muitos anos. Ela disse: “- Estou grávida”. Knock-down. Soco desferido no estômago com precisão ferina. A boca secou. A respiração cessou. Por um instante ficou sem reação. Dois instantes. Três, talvez. Deixando o eufemismo de lado, a manhã inteira.

Pensou no sorriso de sua namorada. Anos de amor. Planejavam se formar e logo após casar. Tinham um grande futuro pela frente. Ela, de família de funcionários públicos renomados. Ele, de família humilde, mas um garoto prodigioso no que estudava. De repente uma bomba em forma de notícia. O que fazer?

Depois de um dia longo, em que segundos viraram horas, se encontraram. Ele tomou a iniciativa. Respirou fundo e disparou: “- Quero que tenhamos esse bebê”. Achava que os sinais do destino eram claros, e que valia a pena seguí-los. Ela parecia não ter ouvido a frase, e de pronto respondeu: “- Vou abortar”. Ele silenciou. Queria o contrário, mas não teve forças para repetir o que havia dito anteriormente, desde sempre. Silenciou, de forma companheira e calma.

Ela marcou todo o procedimento necessário. Realizou-o. Ele acompanhou-a em todos os passos. Rachou o pagamento da clínica. Foi com ela na cirurgia. Chorou copiosamente por dentro, implodindo com uma dignidade que só os sabidamente derrotados conseguem ter. Saíram de lá arrasados. Massacrados.

Eles passaram na farmácia. Ela, anestesiada no carro, chorava copiosamente para fora, explodindo com uma fragilidade que só os reconhecidamente arrependidos conseguem expor. Ele voltou com os remédios. Deixou-a em casa, aos cuidados da sua cunhada. E saiu a esmo.

Saiu de carro e ligou o rádio. Enquanto imaginava o que poderia ser do seu futuro com a mulher querida e o filho que não se consumou, a estação de rádio prega uma peça, tocando em seqüência “All of my Love”, do Led Zeppelin, e “Tears in Heaven” de Eric Clapton. Duas pancadas sobre a perda de filhos. Verteu mais lágrimas, sentidamente.

Dirigiu mais umas boas dezenas de quilômetros sem saber para onde ia. Imaginou mais uma vez o futuro já pretérito com a mulher querida e o filho que não se consumou. Uma fotografia que nunca será tirada, pois a cena não existiu. Naquele momento, acabou-se a inocência. E o relacionamento também.

[Publicado originalmente em 100 contos que não valem nada, em XXII.11.2004]

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