Persona

Abril. Nasci em vinte e nove de abril. Sempre digo que as folhas de outono caem e morrem em abril. Eu, contra a corrente, escolhi nascer. Minha mãe queria colocar meu nome de Sérgio. Com todo respeito aos Sérgios do mundo, isso não é nome de craque. É nome de zagueiro do Olaria. E bem, se não sou craque, pelo menos tiro minha onda por aí. E o Flamengo com isso? Explico Já.

Como eu disse, meu nome seria Sérgio. Meu pai, africano malemolente, trabalhava num navio, moeu o dedo – literalmente, para deleite do meu amigo Felipe Lobo – em um pilão e foi a um hospital no Brasil. O navio foi embora e meu pai ficou no Brasil com a roupa do corpo. A partir daí, começa sua aventura por terras brasileiras.

E nesta aventura, papai se apaixonou pelo Flamengo. E pela primeira mulher. E teve uma pá de filhos. E depois conheceu minha mãe, se apaixonou por ela, embora continuasse apaixonado pelo Flamengo. E eis que vim. E na hora de discordar do nome, a sugestão de consenso foi Arthur. Minha mãe adorou, lembrava as Brumas de Avalon, Rei Arthur e aquelas coisas que toda mulher romântica gosta. Até porque minha mãe é Botafogo. Botafoguense é romântico até nas cores do uniforme, um filme de Casablanca em forma de camisa.

Mas o velho? O velho adorou. Se dependesse dele, era Arthur Antunes Coimbra II. Mas quem manda nessas coisas é a mãe. E ficou Arthur Chrispin, com uma série de outros nomes no meio. Coisa de diplomata. Nome grande. Arthur. Nome de craque. De camisa 10. Embora 14 seja meu número da sorte. Tudo bem. Lembra o Cruyjff, que deve ser Chrispin em holandês.

Pois meu pai se separou de minha mãe – é danado o velho, tem 6 filhos com várias mulheres – e continua apaixonado pelo Flamengo. Eu fiquei uns vinte anos afastado dele. Uma vida inteira. Com muito amor e respeito, mas afastados. Nos reaproximamos. Temos muito mais semelhanças do que diferenças. É impressionante como a genética conta nessas coisas. Mendel deu uma nova importância às ervilhas, palmas pra ele.

Só que eu sou muito mais apaixonado pelo Flamengo que meu pai. O Flamengo me acompanha nas alegrias e nas tristezas, isso quando não é protagonista de uma coisa ou outra. Me arrisco a dizer, com toda a certeza, que sou Flamengo muito antes de nascer. Tenho mais certeza ainda que serei Flamengo até depois de morrer. E São Jorge, de quem sou soldado de infantaria, chamará São Judas pra me receber. Porque é assim desde sempre. E todo dia vinte e nove de abril eu celebro minha passagem neste mundo. E meu prazer e amor em ser Flamengo.

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4 opiniões sobre “Persona

  1. Pingback: Carta ao Ídolo | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Ainda que prefira a origem “materna” do seu nome (\m/ Brumas de Avalon\m/), não tem como não se divertir com suas “mal traçadas linhas”. Que tenhamos muitos outros anos de flamenguismos, malemolências e etc. Feliz anversáriooooo!

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