Quase 40

Jean tem quase 40. Quarenta anos, de sonhos e decepções. Por todos os caminhos longos e curtos de sua vida, Jean sofreu tropeços. Foi bêbado algumas vezes e equilibrista em muitas outras. Assim como o mundo dá voltas e as luas mudam de fase, Jean faz o mesmo. Ele tem quase 40.

Certa vez, Jean era noivo. Sua noiva o amava muito. Jean foi para Nova York e se descobriu homossexual. Ser homossexual é apenas uma questão individual, mas pode se tornar um problema social entre os próximos. Aceitar-se ou não? Voltando de Nova york, Jean encontrou-se com sua noiva e contou-lhe a verdade. O chá-de-panela, marcado para a semana seguinte, virou o “velório do mais novo gay da praça que me abandonou”. Ao saber do ocorrido, Jean engoliu em seco as lágrimas, levantou a cabeça e partiu em frente. Tudo bem, eles tinham 25 anos. Hoje, são grandes amigos. Ambos têm quase 40.

Jean foi morar em São Paulo a trabalho. É médico. Encontrou-se com Osvaldo, uma pessoa que o ajudou muito em sua trajetória. Osvaldo e Jean se apaixonaram perdidamente. Viveram um grande amor. Osvaldo propôs que Jean fosse com ele para Paris e largasse tudo. Jean pensou e pensou: “Je ne regrette rien”. Não foi. Osvaldo foi e nunca mais voltou. ” Tenho 30 anos, o verei de novo. Ou terei outro grande amor.” Não encontrou Osvaldo de novo, nem teve outro grande amor. Isso o preocupa. Ele tem quase 40.

Contou para sua mãe que era homossexual. Achou que ela tacaria todas as pedras que tivesse nas mãos. Ela compreendeu, apoiou e o abraçou. Ele chorou, envergonhado com seu pré-julgamento. Ela não se arrependeu jamais disso. Era algo previsível. Afinal, ele tinha só 35 anos. Ela tinha quase o dobro dos 40. A experiência serve de muita coisa. Embora nem todo o experiente tenha idade avançada, todos de idade avançada são experientes.

Pesquisadores afirmam que, a partir de certas idades, o ser humano deixa de se abrir para novas experiências. Deixa de comer coisas novas aos 35 anos, de ouvir novos sons aos 40, e por aí vai. Será que isso ocorre? Voltando a Jean, ele está sempre se redescobrindo. Como médico que é, diagnostica os erros de seu passado e não os esconde com placebos fugazes.

Agora é independente, deixou de ser refém de seu preconceito e dos preconceitos alheios. Ele só quer salvar vidas, cultivar seus hobbies e amar. Ele também cansou de esperar um novo amor. Agora, corre atrás, se embebedando de paixões e se equilibrando nos momentos difíceis, mudando de fase em fase, sempre para melhor. Ele aprendeu muito. Pois é, ele tem quase 40.

[Publicado originalmente em “100 contos que não valem nada”, XXVI.11.2004]

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