A Feiticeira e o Cavaleiro

Era uma vez um menino. Muito esperto e forte, que não tinha medo de nada. Em suas caravelas de papel, era o almirante. O Barão Vermelho que pilotava pipas que rasgavam os céus, provocando a queda de outras, como ases alemães em aviões inimigos. Não tinha medo de sangue, não tinha medo da dor.

Encrencas com garotos maiores, cachorros ou vizinhos rabugentos não o faziam temer, pois sabia que, quando chegasse em casa, sua avó estaria lá, como uma feiticeira imbatível, com a fórmula mágica para a cura de seus percalços, uma poção mágica chamada Elixir Sanativo, acompanhado de seus carinhos, conselhos ou broncas, o livrando de todo mal.

Quando a noite chegava, não tinha medo do escuro, pois sua guardiã leria mais uma fábula na qual o bem venceria o mal, inexoravelmente. Cresceu acreditando nas coisas boas da vida, na felicidade. Estudou, se formou, batalhou, para orgulho de sua avó, a feiticeira invencível.

O tempo passou, o menino virou homem. Um cavaleiro dos tempos modernos. Falando em tempo, ele surgiu como o grande inimigo de sua mentora. Começou a roubá-la, em uma rotina pontual e diária, pedaço a pedaço. Em um fatídico dia, se apresentou como “o” inimigo final: Invisível, incansável e – pior de tudo – invencível.

Por mais que ela lutasse e se mantivesse forte, a magia que a envolvia começou a se esvair e deixou-a desprotegida. O menino homem que nunca teve medo, mas sempre teve esperança, se deparou com uma inversão de sentimentos: Conheceu a face gélida do medo e perdeu a sua esperança. Começou a não dormir, a chorar em seco, relembrando o passado como um grosso livro antigo, lido em segundos, com páginas se puindo e desaparecendo entre seus dedos.

O homem com alma de menino começou a se sentir só. Contestou um Deus que ele não sabia mais se existia, mas que, se existisse, seria muito injusto com ele e sua amada avó. A feiticeira, mesmo perdendo a luta contra o tempo, se mantinha serena e sábia. Lutar contra o tempo seria inútil, mas proteger seu cavaleiro nunca foi em vão.

Sentia o olhar longínquo e diferente de seu querido neto. A alma infante, amedrontada e triste. Sabia que o destino a levaria, de forma quase intuitiva, mas antes disso teria de lutar para ensinar seu neto a domar e lidar com o medo, que deixado livre e selvagem, é um inimigo muito pior que o tempo.

E a isso ela se dedicará até a hora em que o tempo a levar: A lutar pelo seu menino de ouro. Enquanto houver chances o menino lutará pela feiticeira. Enquanto houver sopro de vida, a avó lutará pelo cavaleiro. Mas ambos nunca esquecerão este dia. O dia em que o cavaleiro sentiu medo de perder a avó. E a feiticeira sentiu medo que o menino se perdesse.

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3 opiniões sobre “A Feiticeira e o Cavaleiro

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  3. Inenarravelmente encantada… Chorei muito e a saudade me lacerou a alma!
    KD o filho que um dia – mesmo contra todas as previsões – os céus me deram? Te amo filhão..

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