Sua Majestade, o Futebol

A última rodada de um campeonato. Dois rivais ferrenhos na disputa do título. Na Inglaterra, o dia será lembrado pelo mais emocionante final de campeonato em muito tempo, entre dois times que amam se odiar e dividem a cidade de Manchester ao meio: City e United.

Um, com as prateleiras empoeiradas sem campeonatos nacionais desde 1968, querendo voltar a ser importante e fazer feliz uma torcida apaixonada, exultante e azul. O outro, o maior bicho papão da nova era do campeonato inglês, com um dos melhores e mais longevos técnicos da história, a hegemonia demoníaca em vermelho. City e United chegaram emparelhados à última rodada.

Começam os jogos. Nervosismo em Manchester, no Etihad Stadium, contra o Queens Park Rangers. O City não consegue se impor, joga de forma atabalhoada e esquisita. Numa jogada bem trabalhada, Yaya Toure, o gigante de ébano, dono do meio campo azul, dá um passe açucarado para a formiga operária Zabaleta. Ele chuta, não tão forte, mas o goleiro Kenny, tal e qual no South Park, é morto pela bola marota. City 1 – 0.

Já em Sunderland, no Stadium of Light, o United mantém os nervos no lugar. Antes mesmo do City, Wayne Rooney, o Alex Kidd redivivo, o xodó da torcida, abre o placar. Pedra, papel, tesoura, gol. Rooney não costuma bobear. Os Diabos Vermelhos, embora tenham vacilado este ano, têm a camisa pesada. O jogo está sob controle. Agora é só manter a parte feita. E esperar que o City vacile.

Voltemos ao Etihad. Lescott, zagueiro seguro, certeiro, pontual, erra. New Order cantaria “Regret”. Arrependimento do defensor. Cissé, aquele, não tem nada com isso e empata o jogo. O QPR assim se safaria do rebaixamento independente de qualquer coisa, e o United seria campeão. Drama. The Smiths cantaria “Panic”.

Começa o segundo tempo. Em Sunderland, o jogo é mantido sobre o controle do United. Nada diferente por lá. Muito diferente em Manchester. Joey Barton, um figurante de “Trainspotting”, dá um cacete de leve em Tevez, que como um figurante de “Evita”, faz a milonga no chão. O capitão do Queens Park Rangers é expulso, não sem antes dar uma pancada cockney em Aguero. Aguero é craque. Não se deve mexer com craques.

Mas o Queens Park Rangers é valente. E na base da vontade, do valor, da raça, desempata o jogo. Com um a menos. Drama em Manchester. Joy Divison cantaria “Atmosphere”. O Oasis cantaria, bem, o Oasis não cantaria nada, porque os irmãos Gallagher são torcedores ferrenhos do City, e a esta altura do campeonato, estão sem voz e sem unhas.

E o título se encaminha calmamente para o lado vermelho da cidade industrial. Mais uma vez. Relembrando a musiquinha de Gorpo, azul estava se transformando em amarelo. Nada belo para o City. Mas este não é um esporte exato, este não é um esporte comum. Este é o mais imprevisível e democrático dos esportes, o futebol.

Kenny fecha o gol dos Queens Park Rangers. Ironicamente, os Red Devils cantam “God Save the Queens”. Nada passa, o City amassa, pressiona, encurrala. 45 do segundo tempo. O choro começa a rolar do lado azul. O sorriso se escancara do lado vermelho. Escanteio. Edin Dzeko, o torpedo bósnio, marreta de cabeça, gol. 2 -2. Ainda dá. No futebol, sempre dá. E o City não desiste.

Bola pro ataque, o QPR não sabe mais o que fazer, espana pra onde está virado, Londres, Belfast, Cardiff, Glasgow. As bolas espanadas viajam todo o Reino Unido, mas uma delas, que não foi isolada, chega aos pés de Balotelli, o Super Mario, que mesmo caído, sem cogumelo, pena ou estrelinha de invencibilidade, passa para Aguero, que é craque.

Aguero pára o tempo. 49 minutos. O zagueiro vem, com a velocidade do trem pagador. Kun, com a frieza de Ronald Biggs, dá um corte seco, com leveza, sem violência, pois esta é guardada para o chute feroz que mata Kenny pela última vez. 3 – 2. Gol. 44 anos de tristeza estão para trás. Lembra quando eu disse neste texto que não se provoca um craque? Pois é, agora Joey Barton lembra. City campeão. United, pela primeira vez em muito tempo, é o menor time de Manchester.

Porém, os verdadeiros vencedores fomos nós, que amamos futebol. Num domingo inglês de times de Manchester, terra de ótima música, vai ficar na lembrança o canto universal da torcida do City, entoando “Hey, Jude”, dos quatro monstros de Liverpool, configurando o Reino Unido das lindas coisas da vida. E Dona Elizabeth que me perdoe, porque neste dia, a grande Majestade, que emociona, une e se faz inesquecível, é o futebol.

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3 opiniões sobre “Sua Majestade, o Futebol

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  2. City iniciou a rodada como campeão, tendo o United como vice. E assim terminou. Não existe magia na vitória do esquadrão multimilionário, melhor mandante do campeonato, contra um dos piores visitantes. O City mereceu o título, investiu pesado e obteve o retorno. O United, com um dos piores (senão o pior) time do século ainda deu trabalho e conseguiu ter o campeonato nas mãos, não nesse último domingo, mas qdo teve 8 pontos de vantagem na reta final do campeonato. Infelizmente o time se atrapalhou nos confrontos contra Everton e Wigan e deixou o caminho aberto para a previsível vitória do mais novo rico do futebol europeu. Agora é torcer para Cleverley, Vidic, Ferdinand e cia deixarem as contusões de lado, aguardar a chegada de reforços e tentar fazer frente ao City e a outros grande investidores que possam surgir.

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  3. Excelente texto Arthur, Um dos melhores (Pra mim o melhor) posts desde quando você criou este blog. Sensacional assim como foi sensacional a Final na Premier League. Meus parabéns, Arthur!

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