Orgulho e amor?

Nos idos dos anos 70, Gérson, um dos melhores meio-campistas da história do futebol brasileiro, das almas mais fantásticas que passaram pelo meio, fumante inveterado à época, fez um comercial que marcou: o dos cigarros Vila Rica. Menos pelo produto, consumido pelo tempo e pela falência sem filtro; mais pelo texto, no qual o Canhota de Ouro dizia que “brasileiro gosta de levar vantagem em tudo”.

Ainda que posteriormente se tenha tentado amaciar o impacto inicial da declaração, a mesma foi utilizada fora de contexto e a expressão “Lei de Gérson” ganhou lugar cativo no glossário brasileiro, como símbolo do jeitinho. Observando a questão pelo ângulo da atuação do Brasil no esporte em competições internacionais e dos torcedores, o Canhotinha foi um visionário.

O brasileiro médio não gosta mais de esporte. É um fato. Impulsionado pela TV aberta, o brasileiro ultimamente gosta de ver compatriotas vencendo. Um costume que se inicou com a Galvanização da Fórmula 1 nos anos 80 através de Senna, cuja aura messiânica fazia questão de alimentar, encontrando em Galvão Bueno um porta-voz perfeito para seus feitos.

Com a morte e conseqüente mitificação de Ayrton – brasileiro adora transformar morto em santo, impressionante – a mídia de massa passou a buscar um substituto iminente, como se fosse escolha de um novo Dalai Lama esportivo e espiritual. Adicione à receita o fato de que, meses após a morte de Senna, o Brasil voltava a ganhar uma Copa do Mundo após 24 anos. O cenário de país campeão de tudo estava montado.

O Brasil foi vice-campeão do futebol em 1998 e ganhou novamente em 2002. Surgiram alguns talentos únicos como Guga Kuerten, entre outros. E a TV se apressando em enaltecer os feitos brazucas e deixar o esporte em segundo plano, como se o nacionalismo fosse mais importante que a beleza e o sentimento que envolvem o jogo.

A partir daí, houve um declínio do esporte brasileiro, natural em esportes individuais que não tem uma política própria de longo prazo definida e incomum no futebol, mas compreensível pela globalização das escolas de jogo. Ganha quem se organiza mais, e organizar não é um esporte praticado pelas federações brasileiras, de quaisquer esportes, exceção ao vôlei e à natação, mesmo com comandos ditatoriais.

Hoje, tirando os já citados natação e vôlei, e um ou outro brilhareco individual, o esporte do Brasil fica refém de competições inventadas como “Jogos Mundiais de Verão”, ou à espera de que talentos inatos resolvam o problema. O resultado disso, como a Lei de Newton – não o Santos, Enciclopédia, mas o cara da maçã – ensina, toda ação gera uma reação de igual força e proporção.

È comum ver nas gerações mais novas a torcida pelos times fortes da Europa – “Meu” Barcelona, “Meu” Real Madrid, “Meu” Manchester United – sem torcer pelos times locais. A molecada acostumada ao ufanismo, ao orgulho e amor propagados pelas TVs abertas, cansou de perder. Esquece que a paixão nasce não só do amor, mas da dor. Como diz o proverbial samba, a dor que dói é a dor de amar.

No consumo fast food da mídia de massa, amor não é suficiente, nem em novela. E a própria mídia começa a amargar baixas audiências em virtude de sua campanha estúpida do passado, a qual tenta reverberar até hoje. O quarto poder da imprensa maniqueísta, quando reinava soberana nas TVs abertas, fez um estrago que a imprensa especializada de internet e TVs fechadas tenta reparar.

O tempo para tal conserto será longo. E talvez o Brasil volte a ganhar em esportes mais midiáticos como futebol, basquete e automobilismo, fazendo com que o ufanismo volte com ainda mais força. E o ciclo vicioso torne a começar.

Gérson, nos anos 70, não sabia que uma simples frase, distorcida e levada a cunho pejorativo, fosse tão profética e milimétrica como os lançamentos que fez em campo. O importante para o brasileiro não é admirar o esporte. O brasileiro quer ganhar, quer que o compatriota vença, e o estrangeiro que atrapalha estes planos é um mero vilão, sem qualquer qualificação e mérito. Afinal, de acordo com a mídia de massa, somos o país do orgulho e do amor – a qualquer coisa, menos ao esporte.

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Uma opinião sobre “Orgulho e amor?

  1. Tem uma coisa que eu acho curiosa – não sei se cabe exatamente dentro dessa reflexão, mas vamos lá:

    Em 1994, no instante em que o Brasil sagrava-se campeão do mundo e corria ao redor do campo dando a volta olímpica, o repórter Tino Marcos burlou a organização, que não permitia jornalistas dentro do campo, para se juntar aos jogadores e arrancar-lhes palavras.

    Depois de um bom tempo, os seguranças tiraram ele dali.

    Ok, ninguém morreu por isso, mas o Tino Marcos infringiu uma “lei”.
    Um ato que Galvão Bueno classificou como “brilhante”.

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