A Cantiga da Luz Vermelha

Chega com a mala cheia de calcinhas, sutiãs e sonhos. Alguns curtos como as saias dos vestidos que usa, outros longos como o cabelo que tem. Mais uma estória entre muitas estórias tristes, tentando sair do buraco que o destino cava, buscando a luz de uma vida melhor. É sempre assim, dizem as mais antigas do lugar.

Se batiza com um novo nome, como se o verdadeiro preservasse, além da identidade, a pureza do passado e a esperança do futuro. Arruma seu quarto com o mínimo de lembranças, as mais tocantes, especiais, para que não se perca o foco e a bússola dos dias melhores.

Começa o trabalho. Sim, porque é mais um trabalho. Mais democrático do que qualquer Constituição. Independente de raça, credo, cor, sexo, religião. Todos os clientes devem ser atendidos com a mesma presteza, o mesmo sorriso.

Mesmo que os dentes brancos escondam a face escura de melancolia que por vezes toma conta. Não há mau humor, não ha tristeza, não há dias ruins. O prazer alheio muitas vezes é desgostoso.

Entre doses de enérgico, vodka e whisky, buscando fugir das tentações profanas do ambiente. Não pode confundir as aspirações da vida com as da narina. E não pode perder o centro, nem a fantasia – mesmo que as fantasias que alimenta sejam bem diferentes das desejadas pelos clientes.

No meio disso tudo, enfrentando demônios privados, ainda há de se fugir da carência, para que não pule no trampolim das falsas ilusões e amores fugazes, pois de descartável basta o dia de trabalho, que ao fim é sempre extenuante. Lembra da heroína da novela, como é bom ter um mocinho só pra si. A dramaturgia da vida real é muito mais longa, é ruim não poder escrever seu próprio final.

Caminha assim, juntando dinheiro, tentando não perder a razão, nem as razões que a levaram até lá. Porque não pode deixar de sonhar com o mundo, nem que ele seja apenas uma nova janela, de um novo velho lugar, para onde deseja que seu destino aponte.

Observa uma nova menina chegar, com a mala cheia de calcinhas, sutiãs e sonhos. Reflete o mesmo sorriso que fez tempos atrás: medroso, amarelo, cheio de desconfianças. Entre as que se enterraram na escolha e as que buscaram novos horizontes, acolhe a nova moradora, lhe ensinando a cantiga que aprendeu e a mantém de pé. A cantiga da luz vermelha.

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