Luzes da Cidade

Num engarrafamento de uma segunda-feira, de manhã cedo, nos confins de Pernambuco, tentava eu chegar ao trabalho. Você sai do turbilhão do Rio de Janeiro esperando encontrar uma vida pacata, mas não é isso que acontece. Entre 6 e 7 da manhã, já está tudo engarrafado, a três quilômetros do seu local de labuta. Ao lado, um campinho de futebol, lotado. Trabalhadores que vão encarar Suape posteriormente, batendo uma pelada que pode ser chamada de “Missa do Galo”. Afinal, futebol é religião.

Futebol de campo. Onze contra onze. Como deve ser. O engarrafamento não anda, e eu consigo enxergar naquela partida simples, em plena segunda, um jogo de verdade. Há um time de colete vermelho e preto. Oras, rubro-negro. Claro, é o Flamengo. Afinal, somos os únicos rubro-negros, todos os outros são vermelhos e pretos. E o time do Flamengo ataca com o carequinha, que apelidarei de Deivid. Mas Deivid perde um gol incrível. O xingo mentalmente, “filho da puta”.

“Filho da puta”. Assim xinga o companheiro de ataque do carequinha, com cabelos grandes, quase um Ronaldinho. Mas entre 6 e 7 da manhã, correndo assim, não pode ser o Ronaldinho. Deve ser o Vagner Love. O carequinha o olha contrariado, e logo em seguida faz um golaço de cabeça, testando de olho aberto. O cabeludo aplaude, o carequinha grita: “sou foda”. Ambos riem. Dig Din.

O time adversário desce atacando, de colete fluorescente. Não existem muitos times de neon neste esporte sagrado. Talvez o Palmeiras, talvez o Salgueiro. Não, o Salgueiro não, o colete não tem o patrocínio do Limão com Mel. Mas isso é irrelevante. Lá vem eles atacando, cruzamento na área, bate rebate, bola na trave. Mas que coisa, até no Flamengo da pelada há problemas com a bola aérea. O goleiro, o Felipe da pelada, uma maquete do Felipe, com 1,60m, reclama com a zaga.

E o jogo continua fluindo, o time das canetas marca texto faz uns três ou quatro gols, o Mengão da Muribeca faz uns cinco ou seis. A nossa defesa, com um cara altão, que deve ser o González, está meio desorganizada. O nosso meio, numa tática de padaria, defendendo em bloco e atacando em massa.

O povo se amontoa ao lado, um cavalo passa na frente da minha visão e… uma buzina começa a tocar muito forte atrás de mim. A pista desobstruiu, o fluxo volta a correr. O relógio marca 07:24. Às vezes esquecemos das coisas prosaicas, em meio ao stress e às luzes da cidade. Hora de começar a trabalhar, sem nunca deixar de pensar no futebol, que existe em todos lugares, sempre partindo de nós.

[Publicado originalmente no “Bola Pra Quem Sabe”, em XVII.4.2012]

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