Eu Queria Ser Poeta [ou Pianista]

Eu queria ser poeta. Poeta ou pianista. A maior frustação destes meus anos de vida é não saber fazer uma poesia decente, nem tocar piano. O erudito sendo usado da forma mais democrática possível, tão democrática que há seculos o branco [do papel e do marfim] e o negro [da caneta e do ébano] andam lado a lado, sem preconceitos, se complementando.

Como eu disse, queria ser poeta. Admirava a beleza dos versos e estilos. Aprendia na escola sobre os escritores e cada vez mais os queria imitar criando peças que variavam entre o horrível e o ruim. A prática leva à evolução. E tudo que gostaria era evoluir.

Com a idade e o crescimento, os estilos passaram a influir na minha vida. Todos passam pela fase do romantismo com as moças da escola, o parnasianismo de ser estagiário, se preocupando com a forma, nem tanto com o conteúdo.

O simbolismo de acreditar em dogmas e muletas, o barroco de opiniões, pré-conceitos e preconceitos e o modernismo do amadurecimento imposto pela vida, que não perdoa, nem deixa barato.

Ou queria ser pianista, para me deliciar com os sons refinados a serviço de qualquer música, dando linhas e harmonias e contornos, flanando pelas oito oitavas com elegância, nas quais qualquer desafinamento é denunciado sem piedade. Piano é a tradução mais bela do silêncio em som.

A partir do momento em que este processo de amadurecimento começou, fui deixando a poesia e o piano de lado. A vida parecia um grande conto em preto e branco, muitas vezes noir. Esqueci da beleza de poesia, assim como dos sons do piano. Tudo parecia uma grande distorção de guitarras, na batida acelerada dos pedais humanos caminhando pela metrópole monocromática.

Ainda que haja beleza nisso, é impossível viver sempre assim. É necessário mudar, se adaptar, observar atentamente tudo o que pode ser oferecido pelo caminho. Redescobrir coisas ao redor e sobre si mesmo. Se reinventar para que sempre haja insatisfação e inconformismo. Sem estas duas coisas, se perde o tesão de seguir em frente.

Fui aprendendo a observar as coisas que me cercam, visualizar a beleza e a tristeza de cada uma delas, podendo respirar e enxergar mais do que as matizes que a vida aparentemente oferece e transformar tudo isso em cores e motivação para seguir sempre em frente. Nós somos apenas uma linha da grande poesia do cotidiano. Partitura em forma de gente.

Depois deste entendimento, eu não queria mais ser poeta, nem pianista. A poesia vive e respira por si só. Voltei a escutar o som do piano nas pequenas coisas cotidianas. No dia em que enxerguei as cores da vida, a poesia parou de escorrer pelas minhas mãos. E voltou a navegar pela minha alma, ao som das teclas que norteiam meu destino.

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