Do Que Não Se Esquece

A história deles começou em meados do século XX e atravessou o milênio. Um caso de amor daqueles de revista, tipo Julia, Sabrina, Bianca. Construído com sorrisos, respeito, afeto, tolerância. Daquelas coisas que todo mundo quer ter hoje em dia, mas poucos conseguem.

Se conheceram, apaixonaram, casaram. Ambos formados, raridade para a época. Tiveram e criaram – bem – os filhos, que lhes deram lindos – e bem criados – netos. Passaram por todas as bodas possíveis até as de ouro, sem nunca se preocupar com isso. Não existem marcos comemorativos mais importantes do que os valores básicos de comunhão e convivência.

Idosos, lado a lado no caminho da vida, começaram os percalços da saúde, que enfrentaram com coragem e bravura. Ele, sentindo os efeitos do tempo, da perda de visão, dos muitos cigarros fumados. Ela, começando a se esquecer de detalhes, depois de coisas importantes, e de quase tudo, mas se mantinha fiel a ele.

Como se fosse um filme, ele a fazia se apaixonar todo dia, por alguns anos. E ela se apaixonava, e se mantinha leal, chegando ao ponto de dormir no chão quando ele caiu no banheiro e não conseguiu se levantar. Mesmo no esquecimento, o amor era viva lembrança.

Num desses dias de outono, ele sentiu uma dor no peito. Infarto. Internado, lutou por alguns dias, mas fez a passagem. Ela cumpriu luto, chorou, se lamentou, não tinha mais por quem apaixonar. Quando baixou o corpo no jazigo, sua alma foi junto com a alma dele. Não conseguia mais lembrar de nada.

Passou a confundir, depois a esquecer dos filhos. E dos netos. E da bisneta. Hoje tem mais bisnetos, mas não se lembra mais.Começou a sofrer seguidas derrotas para a mais terrível das doenças, aquela que mata em vida, que leva as lembranças e o conhecimento, justo aquilo que mais nos orgulhamos em ninguém poder tirar.

Como numa viagem reversa, não consegue mais lembrar dos lugares que visitou, do amor que viveu, dos frutos que colheu, das plantas que fez crescer. Não se veste mais só, não consegue mais falar, não consegue mais comer. Mas mantém os olhos vivos, altivos. A família sofre, se corrói, se machuca por não ter o que fazer, mas nunca a abandona. Nas boas e nas ruins, como tem de ser.

Aqueles olhos altivos esperam que o corpo siga o espírito. Pois este já deixou há tempos o breu da triste situação, acompanhou a grandeza do sentimento e caminha com ele, por onde a gente não imagina. O descanso dela será o descanso de todos, mesmo com a dor. E quando os olhos fecharem, eles voltarão a andar de mãos dadas e a sorrir juntos, naqueles lugares que a razão desconhece, mas o amor merece.

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