O Presidente Celeste

Presidente. Status. O poder de ser uma pessoa importante. Inebriados pelo poder, presidentes geralmente esquecem a austeridade, as peculiaridades e ficam mais ricos, robóticos e pomposos. Não é o caso de Pepe Mujica, mandatário uruguaio.

Um país pequeno, mas com brios lutadores desde sua independência, a República Oriental do Uruguai sempre se pautou por momentos políticos instáveis, que culminaram com a ditadura iniciada por Bordaberry em 1973 e que se encerrou em 1985.

Ex-guerrilheiro tupamaro e ex-preso político, José Pepe Mujica foi libertado em 1985, juntamente com a volta da democracia ao país cisplatino. Logo que recuperou sua liberdade, declarou que todos no país deveriam aprender a viver como pobres. Casado com a ex-guerrilheira – e ex-classe abastada – Lucia Topolansky, ambos se mudaram para uma chácara e recomeçaram sua vida de forma simples.

Foi deputado e Ministro da Pecuária, Agricultura e Pesca. Eleito presidente em novembro de 2009, preservou seus hábitos simples. Doa 90% de seus rendimentos a um fundo de moradia e ao partido – Frente Ampla. Sua esposa faz o mesmo com seu quinhão de senadora. É comum vê-lo realizando tarefas prosaicas como comprar uma tampa de privada. Pepe Mujica não abre mão de ser humano, no sentido mais generoso da palavra.

Mujica é um estudioso da antropologia. Os doze anos preso foram revertidos em estudos e mais estudos sobre o comportamento humano e as condições para uma vida melhor. Pepe acredita na humanidade como elo de ligação entre si. Em um mundo onde status confere grau de quase santidade a estadistas, ele faz o caminho contrário. Acredita na proximidade com o povo e leva a cabo o lema de que o “líder deve estar onde seus liderados estão”.

Em vez de Rolls-Royces ou Limusines, Mujica tem um Fusca. 1987. Se este fusca falasse, poderia traçar com exatidão o perfil de seu motorista. Atropelamento e fuga de todo e qualquer senso normal. Mujica e seu Fusca, uma dupla incomum no atual cenário mundial.

Obviamente Mujica deve ter defeitos. Um monte deles. Quem não os tem? Por outro lado, quem abriria as portas de um palácio presidencial para abrigar os pobres? Populista? Talvez. Mas não há recordações de um presidente populista ou caudilho que tenha feito isso. Se é demagogia, é daquelas que efetivamente ajuda ao povo.

Cabe lembrar que, ano passado, quando uruguaios pobres morreram de hipotermia, Mujica demitiu a Ministra responsável, por não ter feito nenhum plano de ação preventivo ou repressivo de tal situação. Agiu em vez de contemporizar. Isso também é raro em Chefes do Executivo.

Não é caso de dizer que, por este tipo de comportamento, Pepe Mujica é um brilhante estadista. Deve ser avaliado e observado de forma crítica, como qualquer político. Mas o presidente charrúa é diferente. É nítido que ele se preocupa com o aspecto humano e, mesmo que o acusem de demagogo e populista, é dos poucos que levou ao pé da letra as tentativas de auxiliar seu povo, de maneira realista.

O sopro de diferença neste mundo uniforme e cinzento nos dá uma perspectiva celeste, como a cor oficial da bandeira e do uniforme do país que Pepe Mujica dirige. Com o cuidado e a singeleza que guia seu Fusca, também azul. E é muito bom sair da poluição da mesmice.

Anúncios

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s