Check-in

Quando eu era pequeno, um dos meus sonhos era andar de avião. Fui criado no subúrbio, de uma geração na qual ir ao aeroporto poderia se enquadrar perfeitamente na categoria “passeio”, com direito a entrar numa daquelas lojas pomposas e comprar biscoito dinamarquês em lata [acredite, isso já foi moda um dia]

O tempo passa, e um par de décadas – e mais um pouco – depois, andar em aeroportos é quase um acontecimento semanal. Aumentando um pouco mais a freqüência e eu já posso fazer remake de Tom Hanks em “O Terminal”. Não reclamo, gosto de viajar e são ossos do ofício, mas o fato de estar sempre em trânsito me faz observar o quanto nosso país mudou neste período.

Antigamente, aeroportos e companhias aéreas eram coisas elitizadas. Acho ótimo que tenham se tornado coisas democráticas e populares. O cavalo de aço merece ser montado por todos. Mas, voltando aos “antigamentes” [sic], havia uma reverência aos aeroportos, aviões e funcionários das companhias. Quase como se fossem diplomatas.

As aeromoças e comissários, com seu inglês impecável saído de livros de Sheakspeare, as boas comidas do serviço de bordo e aquelas peças, como escovas de dentes, que todos da classe média, ou afortunados que viajavam esporadicamente, furtavam e levavam para casa. Viajar de avião era sinônimo de status e tinha aspecto de adjetivo. “Oi, sou fulano, tantos anos e viajei de avião”.

No século XXI, viajar de avião se tornou popular. E ainda bem, porque não se deve negar este direito a ninguém. Tempo é precioso e poupá-lo sempre faz um bem danado. Ademais, a experiência de uma viagem longa de ônibus é antropológica e emocionante. Por si só, dá um bom relato.

Como se diz no jargão aéreo, um fato de grande influência na verdade é o conjunto de pequenos fatos que se tornam algo maior. A transição de transporte de elite para transporte popular foi um tanto quanto traumática para a aviação nacional, seja pela própria necessidade de adaptação, seja pelos acidentes de grandes proporções que ocorreram em curto espaço temporal. Lidar com estes fatores não foi – e continua não sendo – fácil.

Com a popularização das viagens, as companhias aéreas resolveram – pela concorrência – baratear o preço das passagens e – pela economia – parar de investir em serviços supérfluos. Com o aumento da demanda e oferta, houve um estrangulamento da malha, o conhecido e tão falado caos aéreo.

As comidas de bordo foram cortadas, porque além do preço elevado que impunham, o material para fazê-las tornava o avião mais pesado, impactando no combustível. Foram substituídas pelas barras de cereais e, caso recente, por comissários e aeromoças disfarçados de funcionários de fast food, vendendo de Cup Noodles e café solúvel em pleno vôo.

Ressalte-se que nada tenho contra venda de comida e serviços em pleno vôo, desde que esta manobra impacte de forma significativa o preço das passagens, o que ainda não ocorre.

Os funcionários, que antes tinham um idioma inglês impecável, hoje em dia falam um inglês da Pepê & Neném University of Embromation. É impressionante o quanto o nível de fluência decaiu. Como se aeromoças e comissários saíssem do modo legendado para o modo – mal – dublado.

As roupas antes engomadas e impecáveis deram lugar a camisas de malha, calças justas, uma coisa mais contemporânea. A redução dos custos que provavelmente desembocou na redução de salários e exigências e certamente na diminuição da aura que cercava a profissão.

Não deixa de ser muito interessante reparar que os aeroportos e seus modus operandi são um reflexo cristalino do Brasil de hoje. Mais popular, mais oportunidades, corte de custos e salários para aguentar a competitividade e o crescimento de demanda e manter a oprtunidade de oferta, sentindo os efeitos da crise quando algo sai errado.

Enquanto isso, vamos passeando pelos terminais de embarque e desembarque observando o aumento de passageiros e o sorriso daqueles que antes só podiam ir de ônibus – como eu, há tempos atrás. A democracia no transporte aéreo é um grande passo pra maturidade do país, esperemos que com pontualidade e qualidade do serviço. Mesmo que seja alimentado por Cup Noodles ou barras de cereal.

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