Roteiro Adaptado

Ela sempre gostou de cinema. Entre os rolos e câmeras, é habitué. Sua vida sempre foi um roteiro bem escrito e em seus sonhos ela gostaria de linhas cada vez mais tranquilas e coloridas. Entretanto, os caminhos em que se vive são sempre obras abertas.

Vivia uma relação incomum com sua mãe. Enquanto as pessoas sofrem com conflitos, brigas, enfrentamentos, sempre teve uma relação de afeto extremo. No duelo das afirmações e negações, encontravam uma freqüência em comum, na qual só elas se comunicavam. Uma película intensa de amor e compreensão.

Foi sua mãe quem a apoiou em todas as suas decisões, inclusive na de seguir pela trilha sonora e visual do cinema. Se sente em casa com os filmes. Eram tão amigos quanto os amigos de carne e osso. Gosta de ver e rever cenas, decorar falas, anotar trechos, observar erros. Tem dom para a sétima arte.

Depois de uma bela infância e adolescência, em que tudo deu certo, ela sofreu com a perda de seu alicerce, sua confidente, sua inspiração. Ao contrário dos filmes, não dá para pausar a vida. Ou editar. Ou reescrever. Ou fazer decupagem. A vida é para ser vivida. Sem cortes, em plano seqüência.

Se sentiu perdida. Lágrimas de incompreensão pela partida tão repentina e tão cedo. A voz dela faz tanta falta. Queria voltar a escutá-la, mesmo se fosse locução em off, em vez do áudio guia. A aflição de se sentir só. A solidão é sempre uma espada afiada que pende sobre os ombros, como com Dâmocles. Temê-la é mais do que natural, pois quando a solidão corta, machuca e lembra de coisas que gostaríamos de esquecer.

E quando começava a se recompor, sofreu outra perda, daquelas próximas e que tremem todos os alicerces. Se sentiu ainda mais só. Não tinha com quem falar, desabafar. É muito difícil quando um labirinto de emoções te engole e não há ninguém para acudir. Cinema mudo.

Depois de meses de inverno, certo dia sonhou e neste sonho sua mãe apareceu. Não lembra o que foi dito, mas acordou revigorada, recolocou as coisas nos trilhos, voltou a viver plenamente.

A vida não é como cinema. Dentre as diferenças, o fato de sermos atores principais do nosso filme, que é obra aberta. E, geralmente, o destino é um roteirista muito fanfarrão, ao qual temos de nos submeter e nos adaptar. Ela aprendeu que não pode deixar de viver, pois não cabem intervalos em nosso dia a dia.

O que podemos fazer, mesmo quando nada sai como planejamos, é buscar o rumo certo das coisas novamente, e imaginar detalhes que poderiam ter sido e que sempre serão, pelo menos em nossa vontade. É assim que ela vive agora. Play it again, Sam.

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