Preto no Branco

O clássico mais antigo do Estado de São Paulo numa quarta-feira de gala. Como se lembrasse o bom tempo das gafieiras e contradanças, Santos e Corinthians se encontraram tomados pela nostalgia. Um de branco, outro de preto. Lados opostos e bem definidos. Trila o apito.

De um lado o Santos, que muitos classificam como o representante atual do futebol arte brasileiro; do outro o Corinthians, com seu pragmatismo a toda prova. Esse era o lugar comum antes do cotejo, porque, dentro de campo, estereótipos não se criam. O jogo é feito pra ser jogado.

Arte. Existem várias formas e demonstrações de arte. Em que pese o número de títulos que ganhou nos últimos anos, Muricy Ramalho é um técnico unidimensional. Raramente altera características em prol de uma mudança surpreendente. Até suas variações seguem um padrão pré-definido. Se fosse artista, seria Romero Britto. Muito oba-oba, pouca inovação.

Voltando à arte, lembremos um trecho do livro de Sun Tzu, “Arte da Guerra”: “Na guerra também não existem condições constantes. Por isso pode-se dizer que é divino aquele que obtém uma vitória alterando as suas táticas em conformidade com a situação do inimigo”. Muricy manteve o plano de jogo do Santos; Tite moldou o Corinthians de forma a matar o Santos. Toda forma de arte vale a pena. Adaptabilidade.

O que se viu ontem foi um Santos preso e atado dentro de seu próprio estádio, enquanto o Corinthians flanava em campo. Com os volantes em atuação soberba e a defesa com precisão helvética, o alvinegro da capital encalhava a baleia alvinegra praiana, que carecia de criatividade e talento.

27 minutos, primeiro tempo de jogo. Paulinho pega a bola, trata a rechonchuda com carinho e ainda no clima de Dia dos Namorados a chama de meu amor, ma bien, ma femme; rola para Emerson Sheik, que dá um corte seco, observa Rafael adiantado e bate com rara precisão: Golaço. Corinthians 1 – 0 Santos.

Muricy faz sua tradicional cara de Muricy e no intervalo, mesmo com as mexidas, não consegue alterar o panorama do jogo de forma eficiente. Começou a pressionar de forma atabalhoada, no mesmo “vamo que vamo” tentado contra o Velez. Mas no jogo de ontem, havia uma barreira chamada Cássio.

O status do jogo só se altera quando Neymar quebra o pescocinho pro lado, faz carinha de quem tá gostando de menos e dá uma sarrafada em Leandro Castan. A grife do menino – ontem mimado – da Vila o salva de uma expulsão. Emerson Sheik, que tem talento inversamente proporcional ao tamanho de seu QI, compra o barulho de seu zagueiro e revida a entrada. Ganha um ticket grátis para o chuveiro. Expulso. Desfalque certo na partida de volta.

O Santos pressionava com afobação, o Corinthians se mantinha impassível. Parecia que o tricampeão da Libertadores era o time da capital, não o time do litoral. Houve apagão no estádio como nos anos 60, capacete voando no gramado, como nos anos 70, pressão no árbitro e cenas quase lamentáveis, como nos anos 80, mas o resultado foi bem século XXI: Corinthians 1 – 0, merecidamente.

Haverá mais 90 minutos no Pacaembu para que o Santos tente reverter o quadro formado ou o Corinthians parta rumo à consagração que ainda não tem. Por ora e por ontem, os conceitos de arte devem ser amplificados. Artista foi o Timão. O duelo entre os dois times seguiu o dito popular: Preto no branco, curto e grosso.

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2 opiniões sobre “Preto no Branco

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