A Ciranda do Cinismo

Paraguai. Além de Arce, Gamarra, Itaipu, Larissa Riquelme e comércio exterior – aquele ato de atravessar a ponte da amizade e consumir produtos com alíquotas amigáveis, quando as tem – ninguém lembra do país guarani com freqüência. O surreal impeachment do presidente Fernando Lugo traz a nação aos holofotes novamente.

A nação tricolor sempre teve uma queda pela ditadura. Desde os tempos do presidente vitalício – eufemismo charmoso – Solano Lopez, que aliás era filho de ditador, passando por Alfredo Stroessner, o Paraguai seguiu a tradição sul-americana de ser uma terra de ditaduras com poucos períodos de democracia.

Entretanto, era de se prever que o Paraguai tivesse tempos de paz após Stroessner e a transição na seqüência com Andres Rodriguez, o que não ocorreu. Wasmosy, Cubas, Macchi e Duarte fizeram governos democráticos com o fio da navalha bem afiado – O vice-presidente de Cubas inclusive foi assassinado.

Fernando Lugo, eclesiástico, foi eleito em 2008 destroçando uma hegemonia de 60 anos do Partido Colorado. Era sustentado por uma base ampla de partidos de esquerda e direita. Um presidente do povo, filho de Deus, para o povo. Enredo romântico de filme com final feliz, que nunca se realizou.

O alicerce que sustentava Lugo se quebrou paulatinamente durante os anos de seu mandato. O presidente ficou cada vez mais só. Além disso, começou a viver um inferno astral extremamente irônico para um eclesiasta.

Teve comprovada a paternidade de dois filhos concebidos enquanto era bispo e enfrentou bravamente um câncer linfático. Além disso, a principal promessa do presidente, a reforma agrágria, não andou para a frente em seu governo. Sua plataforma política caiu pelas tabelas e o apoio, institucional e popular, estava seriamente comprometido.

Aí ocorreu o fato detonador de toda a sórdida situação atual: O massacre de Curuguaty, um conflito entre sem-terras e capatazes. No caso, cupinchas de Blás Riquelme, ex-senador do Partido Colorado. 18 mortos, de ambos os lados, manchando com mais sangue a terra impura e obtida ilegalmente, nos tempos ditatoriais, de um caudilho oligarca. Nitroglicerina eleitoral.

O massacre foi enquadrado como delito presidencial na Constituição paraguaia, de texto prosaico e simplório, a ponto de permitir estas livres interpretações. Com a perda do apoio do Partido Liberal, a posição de Lugo enquanto presidente ficou extremamente frágil, ainda mais em um país cuja interpetação de democracia é amplamente distorcida.

O congresso paraguaio, na ânsia de se livrar do indesejável chefe de estado, forjou uma pantomima. Mais uma vez adaptou prazos e interpretou a Constituição de maneira esdrúxula. Lugo foi destroçado impiedosamente por seus inimigos políticos numa ciranda de cinismo poucas vezes vista em um meio tão sórdido quanto a política.

O vice-presidente assumiu. O ciclo político paraguaio pós-ditadura vai se repetindo, como farsa. Provavelmente Franco, a seguir o roteiro cuidadosamente remontado na República Guarani, será trucidado futuramente. Em ciclos. Em uma ciranda. Cínica. A política paraguaia é o produto mais falso que o país gerou durante toda sua história

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3 opiniões sobre “A Ciranda do Cinismo

  1. Pingback: 101 | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Essa violência à democracia paraguaia envergonha a democracia latinoamericana, bem como foi o caso do Zelaya uns anos atrás. Eu estive lendo esses dias e vi que quase todos os golpes de Estado na América Latina se deram com apoio parlamentar, o que é lamentável.
    Espero que os outros países não reconheçam este governo e que consigam exercer algum tipo de pressão, mas eu sou bastante pessimista quando a capacidade da sociedade internacional de intervir nos assuntos internos dos Estados, mas vamos torcer.

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