Orquídeas Secas

Se há algo que deve ser regado com lirismo e leveza, é a infância. Dali se formam os sonhos e os caminhos que, no futuro, serão seguidos e tomados como realidades. Deve ser vivida, de forma imaculada, o tanto quanto possível.

Nas estradas do sertão, onde a imensidão do céu profundo contrasta com o calor infernal refletido no asfalto, haviam duas crianças. Meninas que mal tinham chegado à puberdade e ainda brincavam de bonecas, querendo ser estrelas das novelas que chegavam via parabólica, como atrizes maquiadas da cidade grande.

Perto da sua casa, cerca de meio quilômetro, um posto de gasolina, onde caminhoneiros paravam para comer e descansar. O pai nunca gostou de vê-las por ali. Num desses dias de pôr-do-sol, enquanto elas brincavam na beira da pista, um caminhão parou por lá.

O motorista pede informação, elas dão. Receosas, tentam se afastar, mas ele oferece roupa, pede para irem com ele ao posto. Abre um sorriso acolhedor. Ficam balançadas entre a timidez e a educação dadas pela família honrada e a tentação de ganhar coisas que não tem acesso.

Vão ao posto com ele, a boléia do caminhão balança. Tentam resistir, ele é mais forte. São violadas. Alguns minutos que parecem horas, até que a polícia abre a força o véiculo. Entre tapas, retiram o motorista de lá, homem de meia-idade com foto de três filhas no painel, cuja legenda anuncia “Minha vida”. Deus sabe o que faz com elas.

Os caminhoneiros se dividem entre os que defendem o corporativismo silencioso da pedofilia e os que são pais de família. Há um código restrito na classe, que apenas eles compreendem e seguem. Neste caso, o número de indignados é maior que o de “correligionários”. Um pequeno linchamento, moral e físico, se avizinha. O suspeito apanha.

A polícia se cansa do show de horrores e o leva preso em flagrante para a delegacia. Após, segue para um centro de triagem a algumas horas dali, onde a polícia anunciará, sem cuidado, o delito ocorrido. Os presos então se organizam e o motorista é recebido com um kit festa contendo absorvente, sutiã e calcinha vermelhas, KY e batom chamativo, pronto para ser a namoradinha do local. Na ética da cadeia, certas coisas são cristalinas.

As meninas voltam para casa trêmulas. Apanham do pai. Uma sova violenta. São olhadas de forma torta pelas pessoas da vila. Defloradas pela curiosidade e tentação, perdem o viço e a flor da infância, época mais rara da vida, como orquídeas. São julgadas e condenadas em sua própria comunidade. Viram órfãs de pais vivos, zumbis afetivas.

Não tem mais sonhos. São expulsas de casa. Só tem a si mesmas. Cuidarão uma da outra, como irmãs que sempre foram. A rara orquídea da infância secou. Por necessidade, acabam virando atrizes das estradas do sertão, onde nem a parabólica enxerga e se preocupa com elas.

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