O Alfaiate

Quando a Euro 2012 começou, entre os murmúrios e apostas, poucas seleções eram tomadas como favoritas – Espanha e Alemanha – e muitos jogadores eram cogitados para craque do torneio. Neste domingo, a competição chegará ao fim com a Itália na final, depois de tombar o gigante alemão pelo caminho. Grande parte deste mérito se deve às atuações do melhor jogador da Euro até aqui: Pirlo.

Andrea Pirlo, atualmente com 33 anos, é figura recorrente na seleção italiana desde 2002. Não é coincidência afirmar que, em todos os grandes momentos da Squadra Azzurra desde então, o camisa 21 brilhou intensamente. Sua capacidade de vestir o time com habilidade e ritmo é comparada ao alfaiate, cortando o terno, sentindo e ouvindo a voz do tecido, para o caimento e a medida perfeitos.

Na Copa do Mundo da Alemanha, Pirlo foi o motor da seleção campeã mundial. Seguramente foi um dos melhores jogadores do torneio ao lado do magistral Zidane, com a vantagem de não ter perdido a cabeça – sem trocadilhos. Em 2008, o meio-campista estava suspenso quando a Itália foi eliminada pela Espanha nas quartas de final e em 2010, na Copa da África do Sul, teve atuação discretíssima na eliminação humilhante na fase de grupos, com direito a segurar a lanterna de um grupo que tinha a Nova Zelândia.

O ocaso de Pirlo parecia escrito, reforçado pela não renovação de seu contrato com o Milan. Entretanto, o anúncio de sua contratação pela Juventus remoçou o jogador. Tal e qual fênix, Pirlo renasceu e foi o fio condutor do time campeão nacional na última temporada. E os reflexos disso foram extraordinários para a seleção.

A Itália chegou à Ucrânia/Polônia do jeito que mais gosta: desacreditada. Não se subestima um gigante. O leão pode estar desdentado, cansado, xexelento, mas não se coloca a cabeça na boca do felino. Teimam em fazer isso com a Azzurra: 1982, 2006… 2012. Neste ano, com um futebol às vezes eficiente, às vezes deficiente, mas sempre motivado a buscar o gol, os homens de Prandelli são a surpresa da Eurocopa – surpresa, não zebra. Grandes nunca são azarões, mesmo desacreditados.

Nesta Euro, depois de ótimas e constantes atuações contra Espanha, Croácia e Irlanda, Pirlo alcançou seu brilho máximo contra a Inglaterra. Após um empate em 120 minutos, e de um início italiano claudicante nos pênaltis, o camisa 21 efetuou sua cobrança com uma cavadinha de sutileza dilacerante. Sua atitude no meio da tensão desconcentrou os jogadores ingleses, que erraram todos os disparos a partir de então. Na liderança silente que fala com os pés, como diria seu antigo treinador Lippi, Pirlo decidiu a classificação da Itália.

Contra a Alemanha, embora a estrela mais brilhante tenha sido a de Balotelli, Pirlo mais uma vez fez seu papel. Ele não é maestro, não é solista, não é ícone, não é midiático. É silente, é elegante, é preciso, joga tudo pelo todo. Na sua discrição – e na descrição – quando se ilumina, é o alfaiate que calcula, corta, costura, mede e veste todo o padrão de jogo da Squadra Azzurra. Na terra da moda, ser um protagonista com estes predicados garbosos é muita coisa.

Domingo, não importa o resultado do jogo. Se a Itália vai ganhar ou perder. Andrea Pirlo foi a personagem desta competição. Ele pode, tranquilamente, tirar do armário um terno dos tempos em que viveu em Milano, tão bem cortado e especial quanto o seu futebol.  Fatalmente, o prêmio de melhor jogador do torneio será dele. Que a Euro 2012 não seja seu canto do cisne e que ele possa brilhar na Copa das Confederações-13 e no Mundial-14.

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