Ogum & Xangô

Na noite do dia 04 de julho de 2012, fazia sete meses da morte do Doutor Sócrates, cujo nome completo não reproduzo porque me tomaria um parágrafo inteiro. Cercado de misticismo e simbolismo, o Corinthians entrava em campo para tirar seu passaporte e buscar a sua Libertadores, cheio de competência, com as bençãos do oculto. Pacaembu, mais que um estádio, virou um altar de celebração.

Havia a expectativa de um jogo tenso, como o da semana anterior, na Bombonera. O Boca teve dez minutos de brilhareco, igualando as ações. Após isso, o Corinthians tomou conta do jogo. A partida era tensa e horrorosa, mas de amplo domínio corintiano. Os alvinegros não deixavam os xeneizes jogarem.

A camisa pesa em jogos de futebol, mas é preciso que jogadores com fibra a vistam. Ontem, os xeneizes estavam apáticos e desabaram com o peso do seu uniforme hexacampeão. Orión se apagou durante o primeiro tempo, saindo de campo num choro desconsolado. Seu substituto foi Sebastian Sosa, goleiro uruguaio que, há 12 meses atrás, defendia a meta do Peñarol em uma final de Libertadores, no mesmo Pacaembu, sofrendo dois gols. Seria um sinal dos céus?

Na volta do intervalo de jogo, o Corinthians veio com uma alteração importante. São Jorge entrou em campo. E não subiu ao gramado para salvar o time, que jogava bem. Foi participar da festa e brindar com coincidências um pavilhão que durante tanto tempo sonhou com esta conquista.

De todos os esportes, o futebol é o único esporte que não é ateu, muito menos lógico. O imponderável, o acaso, o sobrenatural, o místico, o “acredite se quiser”, estas coisas sempre tem espaço no futebol. Se Deus existe, calça chuteiras.

Segundo tempo, 8 minutos. 8. Número da camisa de Sócrates, o maior ídolo. Bola na área,
chega em Danilo. Como o Doutor, ele dá um passe de calcanhar – meio esquisito, é verdade, mas ainda assim com o calcâneo. A bola perereca na área e sobra limpa para Émerson Sheik, que, tal e qual um Basílio albino, fuzila Sosa. Corinthians 1 – 0. Modernizar o passado é uma revolução, diria Chico Science. Com pitadas de 1977 e Democracia Corintiana, os alvinegros estavam a frente do placar.

O Boca Juniors que já era dominado, se calou. A bola queimava nos pés argentinos. O gigante da América adormecia em pleno Pacaembu. O bando de loucos corintianos estava bem sereno. Mais louco era quem dizia que eles não seriam felizes.

27 minutos. Schiavi erra o passe e dá um presente para Emerson Sheik, o mais maloqueiro dos jogadores em campo. Como um Ogum redivivo, ele nunca balança, ele pega na lança, ele mata o dragão da maldade e do jejum continental. Sosa, como há doze meses atrás, buscava a segunda bola no fundo do barbante. O Basílio albino grava seu nome no Panteão corintiano. Corinthians 2 – 0.

Foi uma vitória da técnica, da raça, do coletivo, da doação. Foi uma vitória guerreira. Como Ogum. Na noite de quarta, São Jorge deixou de ser dono apenas do Parque. Passou a ser dono da América. As sete espadas viraram onze, que defenderam o esquadrão alvinegro em todos os momentos. Invictos. Uma vitória guerreira, mas uma vitória do melhor, forjada com justiça. Como Xangô.

Na noite de 04 de julho de 2012, uma grande nação comemora sua independência. A República Popular do Corinthians ingressou no Mercosul futebolístico. O Pacaembu virou altar. Depois de tantas oferendas em sacrifício, com Guinei, Roger Guerreiro, Felipe, Alexandre Lopes, Marcelinho, chegou a hora da graça alcançada.

Com as bençãos e a sintonia fina de Ogum e Xangô, assim como no fantástico disco de Gil & Jorge. O Corinthians de Luisinho, de Claudio Christovam Pinho, de Basílio, de Wladimir, de Sócrates, de Neto, de Marcelinho, de Tevez, de Ronaldo. Ontem, foi mais Corinthians do que nunca. Ontem, foi Corinthians do Corinthians. Com Alessandro, um coadjuvante, como capitão. Mais simbólico, impossível. Sem estrelas, com todos brilhando. Ogum sorri.
Xangô também.
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A saga do Corinthians na Libertadores foi tema de algumas colunas no
“C&OD”:

Contra o Vasco, em “Música em Dois Atos – Ato 2”:

A primeira semifinal contra o Santos, em “Preto no Branco”:

A segunda semifinal contra o Santos, em “Instinto Coletivo”:

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Uma opinião sobre “Ogum & Xangô

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