Filho Feio Tem Pai

O palmeirense é aquele torcedor que nasce calejado com o sofrimento. Nos períodos de seca ele tem imensa resistência a dor e decepção. Foi assim quando arrancaram seu nome Palestra à força e quando enfrentou períodos de jejum. Quando a vaca italiana da Parmalat deitou, deixando os bezerros oriundi desmamados, o Palmeiras perdeu força nacional, mas sempre foi grande. E nunca se deve menosprezar os grandes.

Nesta Copa do Brasil, o Palmeiras subverteu a máxima de que “filho feio não tem pai”. Um time limitado, com estrelas de brilho intermitente, que se notabilizou por jogar feio e buscar seu objetivo, o título.

O grande timoneiro da conquista é Luis Felipe Scolari. Tecnico campeão do mundo, estava na berlinda e sistematicamente questionado por frequentes fracassos. Dirigindo um Palmeiras que em 2011 passou por mais crises do que o casamento da Ana Maria Braga, o bigodudo treinador precisava de um título. E ele veio com requintes de raça e felicidade.

A campanha do Palmeiras começou devagar. Ganhou o Coruripe de Alagoas em dois jogos, o que gerou dúvidas sobre a real capacidade alviverde no torneio. Depois, chapuletou o Horizonte no Ceará, em um jogo só, e trucidou o Paraná Clube.

Nas quartas de final, derrubou mais um paranaense, o Atlético, que virou brisa. Até chegar o momento dos reencontros com o Grêmio, com Luxa, com Kléber Gladiador. O Palmeiras, subestimado até pelos seus torcedores, como se estivessem em autodefesa, ressurgiu em chamas. E se classificou para jogar a final com o Coritiba, o alviverde araucário que lhe havia sapecado uma sonora goleada, sem açúcar e sem afeto, na Copa do Brasil de 2011.

Don Filippo Scolari, abençoado por N.S do Caravaggio, decidiu matar o Coritiba com contornos corleonescos. “Deixe que seus amigos subestimem suas qualidades e que seus inimigos superestimem seus defeitos”. O Coxa cansou de perder gols no jogo de ida. O Palmeiras os achou. Valdívia, num pênalti garoto, maroto, travesso e Thiago Heleno, num gol a la Chaves, sem querer querendo, fizeram 2 – 0 no placar.

No jogo de volta, o capo de tutti capi e seus comandados mais uma vez aprontaram das suas. Suportou a pressão do time e da torcida do Coritiba, mesmo assim tomou o gol. “Nem todo o poder do mundo pode mudar o destino.” Bola parada. Mais uma entre tantas. Marcos Assunção, o sniper alviverde, o homem da precisão milimétrica, com um alcance quilométrico, alça a bola na área e…

[Pausa: Uma das coisas mais bonitas de finais de campeonato é quando um coadjuvante, ou um jogador muito subestimado, aparece para brilhar. Chamo este momento de “Efeito Belleti”, mas temos vários outros casos, como Burruchaga em 1986, Angelim em 2009, Mineiro em 2005. Quem gosta de futebol guarda estes momentos com carinho – Nota do escriba: Os – poucos – leitores deste espaço lembram ainda de Cocada em 1987 e Adriano Gabiru em 2006. O assunto rende um texto só pra ele. Um spin-off.]

… a bola caprichosamente encontra Betinho, o jogador achincalhado, o bonde simbólico do Palmeiras 2012. Betinho, o bonde chamado desejo. Desejo de taça. Gol do Palmeiras. Gol do título. O jejum, assim como Luca Brasi, dorme com os peixes. Vitória de um time feio, mas aguerrido, raçudo, que transformou sua limitação em combustível e fez brotar no sisudo rosto do seu treinador um sorriso.

A nação verde despertou de mais um ciclo de tristeza e dor. Voltam a ter orgulho de colocar seu uniforme, de sorrir nas ruas. O Palmeiras de 2012 devolveu alegria a quem estava acostumado com a perda. O time feioso tornou grande parte da cidade mais feliz e mais bonita. O time de Scolari, que prova que filho feio pode ser bem sucedido. E que filho feio tem pai.

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3 opiniões sobre “Filho Feio Tem Pai

  1. Eu nunca vi um time tão ruim do Palmeiras ser campeão de algo. E é por isso que valorizo ainda mais essa conquista. Fantástico poder derrubar todos os prognósticos e mesmo como time grande, ser tratado como azarão. Isso é ser alviverde. Belas palavras, resumiu muito bem essa Copa.

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  2. “Uma das coisas mais bonitas de finais de campeonato é quando um coadjuvante, ou um jogador muito subestimado, aparece para brilhar. Chamo este momento de “Efeito Belleti” ”

    “Efeito Cocada”, pô ; )

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