Nunca Mais

Quando o apito soou após os 90 minutos, a primeira coisa que ele pensou foi: “Perdemos”. “Puta que pariu, perdemos”. Ele estava tão confiante, estava tão feliz. Era o dia da redenção, o dia de desatar o nó que estava preso na garganta, mas não foi possível. Olhar para o outro lado e ver outros comemorando naquele que era seu momento. “Puta que pariu”.

Demora a dormir. Rola de um lado para outro da cama. Se estivesse com chuteiras poderia ter salvo aquela bola em cima da linha. E o juiz? Aquele miserável, que inverteu faltas e marcou aquela falta que não houve. E mesmo que o tira-teima diga o contrário, ele não acredita, “o tira-teima é burro”

Durante a noite, levanta várias vezes da cama. Em certo momento, liga a TV, está passando o jogo. Assiste a cada minuto, misturando masoquismo com a ilusão de esperança que o time vire o jogo no video tape. Se exaspera mais uma vez. Xinga. “Olha que zagueiro ruim”. “Nunca mais vou ver este time em campo”. “Larguei”.

O dia seguinte, cheio de olheiras. Os outros o olham com um desprezo sádico. Como se ele estivesse numa sarjeta moral – e está mesmo. Os seus pares, todos com olhos inchados, como se não acreditassem. Numa mesma onda de pensamento e sofrimento. “Puta que pariu”, “Olha o que esse time me fez passar, time sem vergonha”, “Não aguento mais humilhação”, “Estivemos tão perto” “Nunca mais”.

Não quer ver mais programas esportivos, mas dá uma espiada. Lê o jornal na esperança de que aquela dupla de zaga seja negociada para o Turcomenistão. Pede a cabeça do treinador. “Esse cara não pode mais treinar meu time”. Mal consegue comer, volta pro trabalho, o ponteiro das horas sonolento, o dia não passa. Finalmente volta pra casa, senta no sofá. Lembra que 24 horas atrás estava ansioso pro jogo.“Nunca mais”.

Domingo ele acorda, preguiçoso. Dá uma olhada no jornal, por desencargo de consciência. Checa a escalação dos times. Resmunga. “Porra, olha o que estão fazendo com o time”. Olha de novo. “Não é possível”. Às 4 da tarde, estará no estádio, ou em frente à TV, gritando, xingando, reclamando. “Nunca mais”. “Nunca mais torço pra esse time” “Eu larguei. Eu larg… cruza, cruza, CRUZA, GOL, GOL, PORRA, GOOOOOOOOOOOOOOOL”

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