1172

Eu já contei a vocês das minhas impressões gerais sobre aviação. Voar tem sido comum nestes últimos tempos. Nesta semana, particularmente, tive uma das experiências mais surreais com aviação de minha nada mole vida. 1172. Vôo 1172. Jamais esquecerei – e devia jogar no bicho.

Tudo começa saindo do trabalho mais apressado do que Usain Bolt depois que disparam o tiro de largada. Resolve algo ali, reúne algo acolá, grava um pendrive de música pro dono da firma [não parece, mas é uma atribuição gerencial relevante] e faltando 50 minutos para o vôo, se vai rumo ao aeroporto. Só que…

… no meio do caminho havia um engarrafamento. Havia um engarrafamento no meio do caminho. Naquela estrada que, desde que vim morar em Pernambuco – e já são 9 anos – está em obras. Estrada da Batalha, é o nome. Batalha é chegar ao outro lado. Obra de melhoria, obra para a Copa do Mundo, obra para o alinhamento cósmico entre Netuno e Urano. Não importa o motivo, haverá um reparo a ser feito.

32 minutos em um engarrafamento de 800 metros. Desespero. “Vou perder o vôo”, penso eu. Desespero. Pifa o ar-condicionado do carro. “Vou perder o vôo e vou morrer derretido.” Acabou o engarrafamento. “Acabou, acabou. É tetra”, penso novamente. E agora, falo: “Pisa fundo que eu tô atrasado.” “Olha o radar, olha o radar!” E quem me dá carona, responde: “Puta que pariu, fui multado. Você é muito apressado.” Bem, cheguei ao aeroporto faltando 3 minutos pro encerramento do check-in. Joga a mala. Corre. Entra no avião. Respira.

Poltrona 27F. F de fundo. E lá do fundo, finalmente começo a relaxar. Rezo a oração de Jorge. Rezo o Pai-Nosso. Três bençãos. Pego o livro da viagem. Desta vez é o livro do Bourdain. E finalmente, antes de abrir o livro, me dedico a um dos meus esportes favoritos: observar ao redor.

Adoro ler pessoas. É um exercício de humanidade e humildade. Tentar adivinhar o que os outros pensam, antever movimentos, poder agradar ao próximo ou simplesmente poupar tempo, se proteger. Uma arte. Faço isso desde pequeno. Ler gente demanda tempo, perseverança, uma certa dose de talento. Como quaisquer livros, há leituras excelentes e outras péssimas. Faz parte do jogo.

E ao meu redor a leitura não é boa. Chicleteiros, Asa de Aguieiros, Cheiro de Amorzeiros, Sangaleiros, Claudia Leitteiros [com dois Ts mesmo, dizem] esse povo todo que estava indo para uma micareta no destino final. Um povo estranho que cantava músicas esquisitas. “Então diga que valeu”. Cara, na boa, não valeu. O que me salvou desta vez foi o naipe de crianças que sempre tem nos vôos vespertinos. Aquelas trombetas do apocalipse em forma de gritos e lágrimas que conseguiram abafar o canto do axé. Axé por axé, os Orixás não me deixaram na mão – mais uma vez, aliás.

O avião levanta vôo rumo ao destino e os axezeiros, impossibilitados de cantar, tem sua vingança materializada numa turbulência, que transforma o avião inteiro no batuque do Olodum em dia de jogo do Brasil na Copa. Treme tudo. Treme mais do que Eddie Vedder no clipe de “Jeremy”. Treme mais do que ataque epilético no meio da rua. Treme mais do que jogador de futebol com cara de triste indo bater pênalti. Confesso que não sou dos mais chegados em viagem de avião, mas eu tremo também. Tremi. E temi. 20 minutos intermináveis. Mas o naipe de trombetas dos anjos mirins, de gritos e lágrimas, conseguiu assustar até a turbulência, presumo.

Num vôo de uma hora, já haviam se passado 60% da viagem entre decolagem, cantos de axé e turbulência. Eu, que costumo ler com uma velocidade moderada, ainda estava na quinta página do Bourdain. Decidi me concentrar na leitura, até que alguém cochicha: “Esses caras são da Fresno ou do Restart ou da Cine?”

Bem, se a pré-adolescente que estava duas fileiras à frente não sabia, os axezeiros muito menos. E eu, que nada tinha a ver com isso, é que não saberia mesmo. Os Fresnos, ou Cines, ou Restarts, ou qualquer banda que fosse – acho que não eram Restarts, eles estavam de preto – estavam lá com aquela pose de popstar Brasileirão Série B. Para ser honesto, as meninas queriam pegar o autógrafo deles, para serem diferentes. Não tinham idade para serem groupies e nem conheciam os caras. Não eram fãs. Afinal, fã que é fã é melhor do que comentarista de arbitragem: não tem dúvida.

Depois de tantas desventuras, finalmente o comandante anuncia o procedimento de pouso. Sem turbulências, flanando na terra das jangadas, desce o cavalo de aço. Rapidamente, pego a bagagem de mão e sigo para o desembarque. Espero minha mala, vejo os axezeiros se cumprimentando e se despedindo entre si. Cantando alegres. “Então diga que valeu, véi”. É, olhando por este ângulo, sobrevivi à viagem de avião mais surreal da minha vida. Vôo 1172. Valeu.

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3 opiniões sobre “1172

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