O Reitor

Jamais vou esquecer daquela tarde de março de 2004. Depois de muitas sindicâncias e inquéritos administrativos e dezenas de horas de depoimentos, finalmente me fez uma pergunta: “Quando é seu aniversário?”. Ao que respondi a data, que seria no mês seguinte. “Você estará diplomado antes do seu aniversário.”

Tinha sido um dos oradores da turma de 2002. Era sabido que a homenagem aos Mestres, louvando os alunos que se formaram mesmo com alguns professores horrorosos e desprovidos de conhecimento, mestres de si mesmos, seria impactante. O discurso principal, de um grande amigo, foi ainda mais demolidor. O conjunto da obra transformou vários daqueles oradores e outros estudantes em reféns políticos do século XXI. Fui um deles.

Foram quase vinte e quatro meses de limbo. Insônia. Ameaças. Defesas. Ataques. Administrativos ou não. Estágios indo pelo ralo, alguns sonhos também. Ali, pela primeira vez, não dava mais para ser moleque na vida. Era briga de cachorro grande. E como bom suburbano, não se foge de uma briga.

Como tudo tem um lado bom na vida, conheci professores inteligentes e sensacionais. Vi grandes amigos arriscarem reputações estudantis e se colocarem como alvo testemunhando em meu favor. Não teria coragem de assistir ao vídeo da colação de grau enquanto não tivesse meu diploma.

Foi aí que conheci o reitor. Era político, como todos nós. Com muito mais experiência do que eu nesta seara. Me prometeu uma solução. Continuei lutando internamente e não pude participar da Primavera Estudantil que ocorreu na faculdade. Questão de opção. Cada um no seu papel. Fiquei com a parte dos bastidores. Sempre gostei mais de ser carregador de piano do que de ser centro das atenções. Me sentia à vontade velejando assim. E ao final deu tudo certo para todos nós. O câncer maior da faculdade foi extirpado.

E voltamos ao começo deste texto, quando o reitor disse que eu estaria diplomado antes do meu aniversário. Em cerimônia feita no Salão dos Passos Perdidos, na véspera dos meus 26 anos, dois anos depois da data correta de colação, ele, pessoalmente, me diplomou. Hoje, soube que o reitor morreu. Gratidão é coisa que se leva para sempre. E eu sempre serei grato a Aloísio Teixeira. Está na hora de finalmente assistir ao vídeo da colação de grau.

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