A Denver Nossa De Cada Dia

Mais uma vez uma chacina americana toma conta do noticiário. Desta vez, em Denver. Como sempre, o instante posterior é uma grita sobre questões armamentistas ou desarmamentistas, questões psicológicas e psiquiátricas e até sobre a influência dos quadrinhos/games/filmes na formação psíquica dos seres humanos. Um ciclo de infrmações, deformações, distorções e opiniões.

Foi em Denver. Poderia ter sido em Columbine. Em Oslo. Em Realengo. Num cinema em São Paulo. Em todos estes lugares, haviam armas e, principalmente, havia um ser humano lunático que estava pronto para disparar o gatilho em nome de uma ‘causa’, com uma justificativa das mais injustificáveis possíveis. Ultimamente ser humano e humanidade estão em rota de divergência cada vez maior.

É comum se confundir justiça com vingança. Isso é facilmente justificável sob o ponto de vista individual. Óbvio que quem sofre conseqüências diretas da dor e da violência tem – e é compreensível que se tenha – instintos vingativos. É natural. O que não é natural é que a sociedade como um todo adote chavões rasos como “direitos humanos para humanos direitos”, como se isso fosse a solução de todos os problemas. O buraco é – bem – mais embaixo.

Não cabe uma discussão sobre armamento e desarmamento baseada nestes fatos. Porque uma discussão dessa deve ser o fim, nunca o meio. Deve ser reflexo natural de uma política educacional, segurança e – por que não? – de saúde pública estruturada e geracional. Não é uma discussão ou um ato que deva ser feito de supetão. Mesmo que se tenha uma postura hoplófoba e desarmamentista – caso do escriba – não se pode deixar de levar estes fatores em consideração e tornar uma discussão de posturas em algo prosaico.

A influência de jogos eletrônicos, histórias em quadrinhos e cinema em surtos psicóticos é superestimada. Não existiam videogames no século XIX e os Irmãos Lumiére ainda não tinham feito suas peripécias quando Jack causava um show de horror na Londres Vitoriana. Charles Manson cometeu chacinas inspirado por “Helter Skelter”, dos Beatles. É possível que apareça alguém que faça chacinas inspiradas no som [?!] de My Chemical Romance um dia. Ou digam que “Resident Evil” transformou humanos realmente em zumbis.

“Inspirações” são coisas de difícil medida. Bonnie e Clyde são fontes inspiradoras hoje em dia, mas também vieram de uma época sem recursos audiovisuais e/ou eletrônicos. Colocar a culpa nestes fatores é minimizar que o problema são humanos doentes, que necessitavam de tratamento, mas foram tratados como normais. Ou alguns que até tem a mente normal, e são monstros. Simples – e cruel – assim.

Denver não foi a primeira chacina chocante. Não será a última. Sempre haverá notícias do tipo. O ser humano é capaz de fazer coisas horrendas, assim como é capaz de realizar coisas belíssimas. E continuará sendo assim, nos dois extremos. Feliz ou infelizmente, é parte da natureza humana, onde todas as faces residem em cada um de nós e algumas sobressaem mais que outras.

Como diria a personagem de Chistopher Walken em “Coisas Para Se Fazer Em Denver Quando Se Está Morto”, chamado de “Homem com um plano”, “É apenas ação. Não é parte do trabalho. Limpe a sujeira. Fora da curva, antes de ir beber, prepare-o”. Devemos estar sempre preparados. Há uma Denver sempre perto de nós, a cada esquina. A Denver nossa de cada dia.

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