Groenlândia

– Oi
– Oi
[se beijam]
– O que você está fazendo?
– Estou escrevendo
– Sobre o que?
– Ainda não sei. Estou em dúvida entre escrever sobre Jogos Olímpicos ou o degelo da Groenlândia.
– Groenlândia?!
– É.
– Você acha que isso dá um bom texto?
– Não sei, vou tentar.
– Passou o café?
– Claro. Já viu essa casa sem café?
[sorri]
– Me diga, como foi seu dia? Tudo bem?
– Tudo ótimo. [explica como foi o dia. Detalhadamente. Mulher, né? De-ta-lha-da-mente].
– E o seu, como foi?
– Bom. Cansativo, mas bom. [Homens, né? Um clipping]
– Quer café? [coloca o café pros dois]
– Obrigado, amor.
– De nada. A Pequena tirou 2,5 em Geografia.
– DOIS E MEIO?
– É. No mais ela está indo bem, mas em Geografia se embolou com as placas tectônicas. Tá aqui o boletim.
[olha o boletim] Dois e meio… dois e meio… [olha o boletim de novo]
– Amor, ela foi bem no primeiro bimestre, tem como se recuperar.
– Ok, mas DOIS E MEIO?!
– Fica assim não. Ela vai dormir na casa da avó hoje.
– Ela sabe onde é a Groenlândia? Vou mandá-la pra lá caso reprove.
[sorri]
– Mas me conte, por que escrever sobre a Groenlândia e não sobre os Jogos Olímpicos?
– Sei lá, a crônica parece boa e o nome é sonoro. Que nem “bunda”.”Bunda” é um baita nome sonoro.
– É mesmo. Adoro a sonoridade. Quer mais café?
[faz que sim com a cabeça]
– [ela levanta para buscar o café]
– [ele dá um tapa na bunda dela]
– Ei!
– Sonoro, uai. [gargalha]
– Mas que safado!
– Nunca neguei, foi assim que você se apaixonou por mim.
– Verdade. Você sempre foi cafajeste, mas ao menos foi honesto.
[sorriem]
– [beijo]
– Amanhã você pode me buscar no trabalho?
– Não.
– Por que?
– Tem jogo do Flamengo.
– Puta que pariu, jogo do Flamengo?
– É.
[faz muxoxo]
– Sem chantagens emocionais, esta é cláusula pétrea desde os tempos do namoro.
– É, eu sei.
– Pega um táxi, eu pago.
– Mesmo?
– Mesmo. Stress zero.
– E o Flamengo,tá indo bem?
– Não, tá uma merda.
– O Flamengo não tem meio termo. Ou está bem ou está na merda.
– Em quase dez anos de convivência, você aprendeu o modus operandi do Flamengo.
– Sou esperta.
– Eu sei. Por isso que eu te amo.
– Eu também te amo.
– Vamos dormir?
– Ué. E o texto?
– Vou escrever sobre nossa conversa.
– Conversa? Que conversa? Essa conversa?
– É.
– E tem algo interessante nesta conversa?
– Não. É uma simples conversa.
– E por que você escreverá sobre ela?
– Porque é simples, ordinária. E as coisas bonitas da vida são assim, simples e ordinárias.
[brilha o olho]
– Te convenci?
– Me convenceu
– Pronto, vamos deitar.
– Mas, pera, qual será o nome do texto? [já se levantando]
– Groenlândia
– Mas por que?
– Porque é sonoro. Como “bunda” [dá um tapa na bunda dela e sai gargalhando para o quarto]

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12 opiniões sobre “Groenlândia

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