Gabrielle Andersen

Os primeiros Jogos Olímpicos que acompanhei na íntegra foram os de Seul, 1988. Eu tinha 10 anos e conseguia criar um esquema em casa com despertador e a ajuda inestimável da minha avó, companheira de traquinagens, para assistir os jogos na madrugada. A paixão pelos esportes em geral, herdada do velho, cada vez aflorava mais. Mas meu primeiro e marcante encontro com a competição veio em 1984, Los Angeles, e mudou a minha vida.

Com 6 anos eu era uma criança como a maioria: cruel, egoísta, abusada. Sempre queria competir e ganhar, e não sabia perder. Meus pais enfrentavam a crise no relacionamento, que culminou no divórcio. Isso me deixou ainda mais bravo e arredio.

Daqueles tempos, talvez pelo divórcio dos meus pais, não lembro de quase nada. E os Jogos Olímpicos de Los Angeles não seriam diferentes. Guardo pouca coisa na memória. Lembro da corrida do Joaquim Cruz, ganhando do Sebastian Coe e batendo o recorde olímpico [1:43, nunca esqueci disso, vai saber o porquê]. Lembro do Brasil jogando no futebol contra algum time vermelho – Canadá, acho – e mais uma ou outra competição. Entretanto, há uma lembrança nítida e absurda na minha mente: Gabrielle Andersen.

Não lembro da prova da maratona feminina. Não lembro nem quem foi a medalhista de ouro. Mas a imagem da suiça Gabrielle Andersen, chegando ao fim da prova mais retorcida do que tronco de aroeira, me impactou à época. Eu, moleque, primeiramente me horrorizei com aquilo. Depois, vi as pessoas ajudando a moça e comecei a perceber que vencer não era o mais importante. A partir disso, a competição com meus amiguinhos ficou em segundo plano. E passei a me divertir em vez de tentar simplesmente ganhar. E passei a saber perder. Gabrielle Andersen moldou meu caráter.

A partir daquele dia, o mais importante não era o primeiro lugar, era dar o máximo sempre. Era se divertir e ter a consciência que o meu melhor foi alcançado. Os Jogos Olímpicos são sensacionais porque mostram Moussambanis e Phelps sob a mesma perspectiva e brilho. Como a humanidade deve ser. E isso não é faz de conta. É simplesmente como a vida deveria ser.

Em um mundo corporativo, yuppie, injusto, idiota, é bom ter a semente da justiça e da competição saudável brotando e florescendo, nem que seja de quatro em quatro anos. No meu caso, ela só foi plantada graças a Gabrielle Andersen e seu esforço em honrar o espírito olímpico. E mesmo admirando e batendo palmas para os gênios do esporte, meu olhar sempre terá ternura e carinho reservados a quem honra a grandeza dos Jogos.

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