Supermercado

Preâmbulo: Este texto é um relato baseado em fatos reais. Quase um Manual de Sobrevivência em Supermercados. Proibido para esposas ciumentas.

A vida matrimonial guarda missões que são inevitáveis. Entretanto, há missões que quase sempre são evitáveis. Ir ao supermercado é uma delas. Quando a general da casa – vulgo esposa – dá a missão de que se faça as compras da casa, significa que uma brecha entre o “quase” e o “sempre” foi achada, como se fosse aquela estação de metrô sem sentido de Harry Potter.

Missão dada é missão aceita. Como um kamikaze, você sabe que irá deixar a sua vida para trás – pelo menos por três horas. Pior: Você sabe que além da vida, deixará uma polpuda soma do suado dinheiro familiar naqueles caixas antipáticos, que tentarão te empurrar sacolas ecológicas.

[Pausa: Amo natureza, sou relativamente consciente quanto a isso, mas tenho pavor de sacolas ecológicas e quaisquer campanhas ecológicas que tentem forçar o consumidor a algo natureba. É eco pra lá, ecocarro, ecosacola, ecocaminhada, eco pra cá, ecossuntentável, ecochato, ecossimpatizante. Tudo é uma ecopalhaçada. A vontade que tenho é de citar um grande amigo meu e sempre encerrar as discussões ecoquaisquercoisas com os ecoquaisquercoisas com a fantástica frase “eu nunca vi dinossauros e não morri, meu filho vai sobreviver se não vir um urso polar”. Fim da Pausa]

Já que se está no supermercado – digo, inferno – é hora de abraçar o capeta – digo, a lista de compras. Uma lista maior que a de Schindler, com peculiaridades e complexidades que um indivíduo do sexo masculino jamais entenderá. Coisas do tipo “1 litro de água sanitária. Da azul”. Você olha o setor de limpeza e não há UMA água sanitária com embalagem azul. Por aproximação, você leva a que tem a TAMPA azul.

Porém, ir ao supermercado não é um LP do Oswaldo Montenegro. Há um lado bom. É oportunidade para um desfile de mulheres que lembram uma estrofe de samba do Martinho da Vila: casada carente, solteira feliz, tem donzela e até meretriz. Caretas, desequilibradas [principalmente na fila], confusas, de guerra [no estacionamento] e de paz.

Antes que a culpa cristã te consuma por olhar a bunda – além dos olhos e os seios – dessas mulheres, lembre que a sua mulher te colocou neste inferno, neste Apocalypse Now em forma de gôndolas. Se arrependeu de se arrepender? Pois é. Isso é importante.

Lembrete relevante: Se você tem filhos, evite levá-los ao supermercado. Além de servirem como agentes infiltrados e fiscalizadores dos seus momentos de distração, são potenciais consumidores de sua lista auxiliar, a qual explicaremos adiante.

Além da lista familiar, missão principal da ida ao supermercado, é necessário que se leve uma lista auxiliar. Considere estas segundas anotações como honorários da ingrata missão. Cervejas, álcool em geral, chocolates, revistas de futebol, quaisquer outras guloseimas, tudo estará justificado nesta lista auxiliar, a cláusula oculta de recompensa ao mercenário, no caso o homem que se arriscou no mercado.

Após 180 minutos de compras – mais do que uma partida de futebol com prorrogação, mais do que uma maratona olímpica, mais do que um triatlo [não, aí também não] – surge a fila para o pagamento das compras, o kraken dos tempos modernos. Daqueles momentos onde nada vai te salvar. A trilha sonora do supermercado tocará algo entre Detonautas e Los Hermanos, passando por algum desses covers de Djavan que tocam inclusive Djavan. Sua vontade de ficar surdo será imensa, mas você resistirá.

Ao mesmo tempo, os olhos buscarão conforto visual e provavelmente a TV estará em um programa policialesco ou, pior, com um DVD de forró eletrônico ou sertanejo universitário. Como um Édipo redivivo, a vontade arrancar os globos oculares se tornará gigantesca. Você desejará ser a personagem principal de “Johnny vai à Guerra” por alguns minutos, para não ver, sentir, ouvir nada. Será uma tortura psicológica ao nível do Mossad. Aliás, se o Mossad conhecesse nossas filas de mercado, consideraria os métodos em suas práticas de interrogatório.

Enfim as compras passam pelo caixa, o alívio da missão quase cumprida é substituído pelo misto de tristeza e dor do pagamento das compras. Interprete como uma alforria. Pagando pela liberdade e ainda levando mantimentos de bônus. O sorriso volta ao rosto antes constrito. O caminho ao carro é o sopro da libertação, é a chuva caindo sobre Tim Robbins em “Um Sonho de Liberdade”, é… “ei, porra, tem que pagar o estacionamento” [mais uma fila].

Ao chegar em casa e arrumar as compras, logo após você será inquirido sobre a missão pelo general – vulgo esposa. Em primeiro lugar ganhará medalhas e honrarias pela missão cumprida. Após, você será acusado pelos 20% a mais gastos pela lista suplementar. Hora de se defender.

Os argumentos sobre honorários serão rebatidos, uma pequena discussão se insurgirá. Aí, diga a frase mágica: “Da próxima vez você faz as compras. Eu tento ajudar e esse é o agradecimento”. Assim, com esse libelo sobre a ingratidão, está garantido o hiato de 90 dias sem supermercado, até a próxima missão impossível. Esteja alerta.

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7 opiniões sobre “Supermercado

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  4. Hahahaha, sensacional. Aqui em casa já me livrei justamente pelo argumento “Você gasta demais e compra tudo errado.” E eu deixo pra ir sempre o mais tarde possível, tipo 1 da manhã (embora aqui na roça, se for de sexta e sábado, o único aberto de madrugada vira point)

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  5. Quem nunca levou o tipo errado de Cândida? Quem nunca errou o tipo de leite, shampoo, sabonete e desinfetante? Supermercado está para homens como o jóquei clube está para mulheres: você simplesmente não pede ao outro pra ir nesses lugares, pois o resultado pode ser desastroso.

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