Don Rubén de la Plata

Ele era um guerreiro reconhecido em sua aldeia quando aceitou um novo desafio. Aportou no Brasil disposto a reerguer um monstro ferido, adormecido e desacreditado. Quando ninguém mais esperava, em seu cavalo Rocinante de sabedoria, chegou o engenhoso e fidalgo cavaleiro Don Rubén de la Plata.

“Quando se sonha sozinho é apenas um sonho. Quando se sonha juntos é o começo da realidade”. Don Rubén de la Plata partiu deste pressuposto para transformar uma geração cujo espelho era a desordem ordenada de arremessos a esmo e falta de consistência tática em um time respeitável.

Jogadores que antes se portavam como moinhos de vento em quadra viraram torres de força. Outros que tinham medo de voltar à quadra da batalha se encheram de coragem e envergaram a camisa verde e amarela com um suor que nunca tinham derramado antes. Coadjuvantes que teimavam em ser protagonistas aceitaram sua posição secundária. Protagonistas que esmaeciam, finalmente desabrocharam. “Nunca diga ´eu não acredito no amor ´, a vida sempre nos surpreende”.

Quis o destino que Don Rubén de la Plata sempre enfrentasse sua jóia mais brilhante nos momentos estratégicos de sua trajetória liderando o pavilhão verde e amarelo. No Mundial de 2010, no Pré-Olímpico de 2011, nas Olimpíadas de 2012. Justiça distributiva. Nemesis.

Os rivais passaram a temer o lado oposto novamente. Em 2010, ganharam apertado mantendo o controle do jogo. Em 2011, perderam no jogo que mais importava, quando finalmente reconheceram que havia um oponente respeitável. Em 2012, em um jogo cheio de alternativas, tremeram, suaram, brigaram. E ganharam.

Don Rubén sentiu a dor e o abatimento, e mais uma vez mostrou sua grandeza.  A mesma grandeza que havia mostrado quando poderia ter orientado seu exército para perder uma batalha que livraria o caminho do maior monstro possível, assim como do exército do seu país. E evitou o caminho mais fácil. Orientou a fazerem o melhor, sempre.

Sabe que, para um país cujo basquete estava soterrado, caprichos e deslizes éticos não podem ser permitidos. Fez mais do que o certo, mais do que o honesto. Fez honra. Para ser campeão, nem sempre honradez é preciso, mas para que um trabalho se perpetue, princípios são como bússola. Até em um mundo tão competitivo quanto o de esportes de ponta. “Mesmo entre os demônios há uns piores que os outros, e mesmo entre homens maus geralmente há algo bom”

O basquetebol brasileiro voltou a fazer com que o torcedor sonhe. Voltou a ter corneteiros. O sucesso de um esporte é medido pelas críticas, alegrias e lágrimas que ele gera. Um fiapo de esperança que criou um novelo de expectativas. Há um longo trabalho pela frente, mas o caminho está traçado. Mérito, principalmente, de Don Rubén de la Plata, o homem que uniu duas aldeias rivais em torno de uma idolatria.

Engenhoso, fidalgo, mas ao contrário de Dom Quixote de la Mancha, quando ele voltar à sua aldeia, saberá que há heróis e sempre será tratado como um herói. Lá, onde nasceu. Aqui, onde resssuscitou o basquete. “São minhas leis, corrigir os erros, fazer o bem, evitar o mal. Fujo da vida regalada, da ambição e da hipocrisia e busco para minha própria glória o caminho mais estreito e difícil”. Os amantes e torcedores do basquete brasileiro são todos Sancho Panza. Longa vida, Don Rubén de la Plata.

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3 opiniões sobre “Don Rubén de la Plata

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  2. Eu, como amante do basquete que sou, fiquei muito feliz com a atitude que os jogadores e comissão técnica demonstraram nestas Olimpíadas. Jogaram como um time e representaram nosso país com garra e honra e é isso que importa. Derrotas fazem parte do jogo.

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