Fel

Derrota. A sonoridade da palavra já deprime. Acorde em tom menor. O filósofo Luis Carlos do Raça Negra diria que é o gosto amargo da desilusão – e isso é mal. Fel. Perder. Nunca é bom perder algo. Os Jogos Olímpicos de Londres mostraram várias dimensões da palavra derrota.

Esqueçamos as derrotas vitoriosas, frutos da força monstruosa. Essas tem o gosto da superação. Servem para serem reverenciadas. Tratamos aqui das essencialmente dolorosas. Vejamos as cores das dores que pintam o painel de humanidade, as que trazem lições sem serem moralistas.

As perdas do vôlei masculino brasileiro – de quadra e de praia – subjugados por adversários que foram tatica e tecnicamente melhores. Derrotas do esporte, com contornos épicos que fazem parte do processo de paixão do ser humano pela competição. Derrotas na qual o antagonista perdedor valoriza a conquista do protagonista vencedor.

A desistência de Fabiana Murer no salto com vara, com receio de fazer seu último salto por causa do vento, enquanto nenhuma das outras competidoras recuou. Um ciclo de quatro anos de trabalho travado pela valorização da integridade física em detrimento à possibilidade de glória. Sensatez para uns, covardia para outros.

A dor de Asafa Powell, se contundindo na final dos 100 metros rasos, estancando sua corrida e se tornando um privilegiado espectador de outros sete fenômenos na pista. A dor de se ver como o passado, enquanto o presente – Bolt – e o futuro – Blake – passam como foguetes, sem arrependimentos.

O choro soluçante da esgrimista Shin, mais cortante que a espada que carregava, ao esperar sentada, sozinha, duelando contra os monstros da expectativa, o recurso para sanar o erro da prova. O resultado – errado – foi mantido e a ansiedade virou frustração.

A tristeza pulsante da inexperiência do basquete masculino e do handebol feminino brasileiro, ambos no caminho da redenção, que perderam para dois timaços – Argentina e Noruega – sabendo que poderiam ter feito mais e melhor. A falta de cancha em decisões pesou no momento mais agudo da competição, virando lição.

O olhar incrédulo das equipes de badminton expulsas da competição por entregarem resultados, prática que vem se alastrando, mas que pela primeira vez foi frontalmente combatida em algum esporte.

Além destas derrotas, houve muitas outras aqui não citadas, mas que merecem ser  – e serão – lembradas por quem as viu e ficou marcado por elas. Os Jogos são o microcosmo da vida, onde poucos chegam ao alto do pódio, e muitos perdem – e se perdem no caminho.

Nada mais natural. Não se trata de “amarelar”, de “entregar”. A derrota, a perda, traz menos fama, menos dinheiro, menos reconhecimento. Ninguém quer ficar por baixo, ninguém quer ser menor do que poderia ser. Estas coisas apenas são as nuances que vemos em cada esquina da vida. Além do mel dos sonhos e das realizações, o fel. Muito fel.

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