Doze Anos

Depois de estudar de segunda a sexta, sábado e domingo soltando pipa e jogando bola. Não havia potrancas naquela época, mas a idéia era dançar com emoção nas festinhas. Afinal, éramos a nova geração. Os doze anos eram quase uma etiqueta na testa.

Um sábado intenso brincando e fazendo traquinagens, com algumas escoriações pelo caminho, e depois aguardar a noite chegar. Com doze anos, o tempo parece passar muito mais lento. Adolescência e ansiedade são sinônimos.

Vestir aquela camisa e bermuda com a marca estampada, como se fosse um outdoor, no estilo da novela das sete, Top Model. Perfume? Nada de importados. O negócio era aquele perfume ganho no aniversário, vendido por aquela amiga da sua tia, da Avon, da Natura, da Água de Cheiro, do Boticário.

Treinar os passinhos daquela música do Noel, do Linear, do Milli Vanilli. Comprar os refrigerantes para levar à festinha. Meninos com refrigerantes, meninas com salgadinho. Como numa fila de quadrilha de festa junina, todos em lados separados. Muito mais vergonha do que sexismo.

Aguardar e sonhar com a menininha dando aquele mole. Como nos desenhos do Snoopy, aquela Garotinha Ruiva que ia nos dar o beijo consagrador. Mas como nos desenhos do Snoopy, ser o Charlie Brown que sempre fica sozinho no final.

Com doze anos, a diferença de idade é brutal. Os caras de quatorze anos sempre parecem inalcançáveis. Os sonhos sempre são demolidos. Esta é a lei da vida, e não é bullying. Hoje em dia tudo costuma ser classificado assim. Nos tempos antigos, sofrer bullying era a formação da carapaça natural contra o temido “mundo lá fora”. Reclamar disso, assim como futebol-arte, escanteio curto, amor platônico e coração aberto, era coisa de viado.

No esperado momento da música lenta, aquela menininha que tanto se sonhava em beijar ia dançar com o cara de quatorze anos. Tocava “Nothing Compares 2 U” da Sinead O´Connor [na época apenas “aquela cantora careca do clipe”. Quer dizer, até hoje é assim], depois “Another Day in Paradise”, do Phil Collins. E baixava a penumbra.

Enquanto a paixão da puberdade beijava outra boca, só restava o consolo de desabafar com a vassoura. Companheira da dança da solidão. Danço eu, dança você. Quem nunca dançou com a vassoura não sofreu na adolescência. Não teve dramas, não forjou seu caráter com a cicatriz das paixonites. A piaçava confidente que salvou vidas, escutou confissões e enxugou
lágrimas.

No domingo, curar a dor daquela festinha mal sucedida com uma partida de futebol. e humilhar aquele cara de quatorze anos com um lençol, um ovinho, um drible da vaca. Na segunda, ir para o colégio, escutar as histórias e não ser protagonista, torcendo para os doze virarem quatorze anos.

Conforme o tempo passa, o ponteiro se apressa. Doze, quatorze, dezesseis, vinte, trinta anos. Aqueles tempos viram apenas nostalgia. E a menininha que era a paixão? E o cara de quatorze anos? Lembranças empoeiradas, varridas pela vassoura do tempo.

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7 opiniões sobre “Doze Anos

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