Cadeira de Balanço

Perto da janela, olhando o horizonte, quatro olhos. Balançando na cadeira, o velho avô pensa no destino, nas contas a pagar, no novo projeto, no passado e no futuro. O neto, que mal caminha, com a chupeta na boca, apenas observa o azul radiante daquele céu. Se entreolham e sorriem.

Já experiente, o avô tem certa ansiedade de ver o neto crescer. Quer ensinar as coisas boas da vida, contar piadas sujas e escutar a graciosa risada da – não tão mais – criança. Discutir filosofia, futebol, música. Indicar livros. Até tomar uma cerveja juntos. Coisas de avô.

Ser avô. Salvo conduto para a liberdade. O passaporte diplomático para a deseducação. Ao avô não cabem lições de moral. Estas coisas chatas são deveres dos pais. Os velhos ensinam de outra maneira. A criatividade, o improviso, o riso frouxo, o poder quando não pode. Aos pais cabe padecer, aos avós cabe o paraíso.

Mesmo com a grande diferença de idade, quando se entreolhavam, não precisavam falar. O sorriso moleque saía simples dos dois lados, assim como a testa franzida e o resmungo rabugento. O tempo passando e algumas semelhanças se acentuando. O bocejo – e a explosão – parecendo um hipopótamo e o costume de falar o que deve ser dito e fazer o que deve ser feito. Coisa da genética, diria a biologia; coisa de espírito, diria a avó.

Nos caminhos que a vida leva, se separaram faz décadas. O neto cresceu, gosta de filosofia, de futebol, de música e toma cerveja. Aceita indicações de livros. Não tem o avô para dividir e debater, mas nunca se sente só. Coisas de neto.

Através dos anos, de décadas, de um século para outro, toda vez que o neto olha o azul radiante do céu no horizonte, lembra do sorriso do avô. Da chupeta cujo cordão era de ouro maciço, que se perdeu em tantas mudanças da vida. Sente saudade. Até hoje, quando  está pensativo, olhando o infinito, escuta o ranger da cadeira de balanço.

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Uma opinião sobre “Cadeira de Balanço

  1. Foda esse texto. Lembrei do meu avô, que entre tantas outras coisas, além de me iniciar na natação do mar, futebol no campo da Ferroviária de SV e ensinar tudo sobre jogos de cartas (tudo que eu sei, diga-se de passagem). Deixou muitas lições para todos os netos.
    Deu saudades do velho Vino…
    Parabéns!

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