Dante Redivivo

                                                                “A contradição não consente/o arrependimento e o pecado ao mesmo tempo.”

(ALIGHIERI, Dante in A Divina Comédia: Inferno, Canto  XXVII)

Adriano mais uma vez buscará sair do inferno para o qual ele mesmo se encaminhou. Não cabe reescrever sobre os fatores que o fizeram ir para lá. Mais uma vez, assinou com o Flamengo. Novamente, diz que quer reencontrar a felicidade. Com o descrédito de todos, o maior talento desperdiçado pós-Garrincha busca redenção. Conseguirá?

O camisa 10 já caminha pelo primeiro círculo do inferno há tempos. O Limbo jocoso do descaso, dos sabidamente culpados e não-condenados. Ninguém acredita mais no Imperador, que virou escravo dos próprios devaneios. Enfrentar seus demônios é necessário para que volte a ser mais do que a pálida sombra dos tempos antigos.

O menino da Vila Cruzeiro não poderá mais cair na tentação do Vale dos Ventos da esbórnia. A luxúria de piriguetes, jegues, anões terá de ficar para trás. Para uma torcida traumatizada com as estripulias do último “herói” que vestiu seu uniforme, fatos como esse farão com que a reputação de Adriano arda no mármore branco do inferno.

Terá de sair do Lago da Lama da gula e baixar seu peso indecente. Ronaldo Fenômeno deu a falsa impressão de que qualquer barrigudo pode jogar muita bola. E mesmo ele não conseguiu fazer mais nada quando atingiu o status de Rei Momo corinthiano. Adriano é menos técnico e mais físico do que R9. A barriga não ajuda a sua explosão, só implode as expectativas de boas apresentações. Menos cerveja, mais milk shakes dietéticos. Se quiser voltar a ser respeitado, tem de ter fome.

O Imperador tem a obrigação de escalar e se esquivar das Colinas de Rochas da ganância rubro-negra. Escudo de projeto político, arma da oposição. Nada em sua contratação pode ser interpretado como gratuito. De sua performance dependerá o destino de todas as correntes políticas do clube, empurrando umas contra as outras. Se quiser se destacar neste semestre, Adriano terá de ficar indiferente a isso.

Há de se ter cuidado com o Rio Estiges da ira flamenguista. O torcedor está impaciente. Já foi maltratado demais este ano. Não há espaço para erros nem perdões. Esta cota já foi gasta. Torturar a massa rubro-negra é temeroso e impensável, caso Adriano queira se reencontrar com o céu da idolatria.

Não pode também ser vítima de sua vaidade. Na Cidade de Dis de sua própria cabeça, não pode cometer a heresia de se portar como um ídolo e craque que já não é mais. Suas passagens por Roma e Corinthians foram fiascos monumentais. Adriano deve se afastar dos tapinhas nas costas e encarar a dura realidade, se um dia quiser voltar a jogar em alto nível, ou ao menos em nível aceitável.

Recomenda-se ainda evitar os escândalos nas páginas policiais de jornais. No Vale do Flagetonte da violência cotidiana, amarrar namoradas em árvores, brigar em baile funk, andar com armas por aí e queimar o pé no cano de escape de moto – dizendo que pisou em lâmpada – não são desculpas aceitáveis. Adriano foi ídolo, hoje é caricatura. Sua reputação escorreu no ralo comum das confusões em que se meteu. Só uma parte da torcida do Flamengo ainda acredita nele. Pode ser muito, por ora é pouco.

Depois disso tudo, caberá uma pergunta sobre Adriano e sua volta ao Flamengo: “É uma fraude?” Hoje, o Imperador é apenas súdito de noitadas e desencontros, ex-jogador em – rara – atividade. Provar a si mesmo e aos outros que é eficiente em vez de deficiente, no seu próprio Maleboge, é a grande missão…

… e mesmo assim, se tudo der certo, ainda haverá o medo do Lago Cocite da traição. Se ele for bem, será que vai virar as costas e ir embora, como fez indo para a Roma e deixando o Flamengo na mão? Ou como fez quando “abandonou a carreira”, rescindindo com a Inter e assinado com o Flamengo breve período depois? Na hipótese de tudo dar certo, ainda haverá esta dúvida.

Adriano, como um Dante Redivivo, precisará caminhar muito para provar que ainda tem valor. Escapar do inferno que ele próprio criou e cujas chamas alimentou tantas vezes. Ao seu lado, o Flamengo, a mulher de malandro do futebol brasileiro, seu Virgílio particular. Já foi salvo do inferno por esse mesmo Virgílio duas vezes. A terceira vez terá o mesmo final?

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2 opiniões sobre “Dante Redivivo

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