No Corredor da Arquibancada

[Chega ao bar, encontra o amigo chorando. Chorando é eufemismo. Soluçando]

– E aí, rapaz?

– [soluça]

– O que houve?

[funga, cafunga e soluça de novo]

– Quer conversar? Desembucha, o que houve? Estou preocupado com você.

[Enxuga as lágrimas] Ela estava ali. O que mais doeu não foi a derrota, não foi tomar aquele gol, foi o que rolou com ela.

– Mas quem é ela? O que rolou com ela, me conte?

– Eram 32 minutos do 2º tempo, o nosso time era pior que o time deles. Estávamos no abafa, no vamo que vamo, no cutuca que dá.  Eu sempre fico no 2º degrau da arquibancada,  o 1º fica longe da grade, sempre dá pra comemorar gol ali.

– Certo. E o que houve?

– Naquele momento, nosso zagueiro, Ébano, foi para a área adversária. Não sei porque o deixaram tão livre, tão sozinho, tão imponente, parecia um tuiuiu voando na abertura do Globo Rural. E subiu consciente para testar a bola. Eu já sabia que era gol. E foi. E eu saí correndo para comemorar.

[olha incrédulo] E?

– E aí que ela também sabia que seria. E ela desceu para comemorar também. O estádio estava lotado, e só nós dois descemos, insanos. Com a trilha sonora da massa, aquela onda vocal de “GOL” pipocando atrás de nós.

[olha com atenção]

– E corremos em direção ao outro, estávamos com o mesmo uniforme, nos olhamos, nos abraçamos, ela tem um cabelo longo, um óculos quadrado na cara, um perfume doce como a vitória do time até aquele momento.

[olha espantado] E aí? Você se apaixonou?

– Claro. Que não. Sabe quando alguém de quem você está com muita saudade volta de viagem? Você está no aeroporto esperando a saída da sala de desembarque, e quando isso ocorre, a pessoa deixa as malas cairem e vem correndo te abraçar? Quando você passa no vestibular e precisa, eu disse precisa, ver seu pai, sua mãe ou seu melhor amigo, ou todos juntos, vai correndo desorientadamente e os abraça? Bem desse tipo. Só que eu nunca tinha visto aquela pessoa.

– Que surreal.

– Pois é. Surreal. O êxtase do futebol colocou a gente ali, nos braços do outro, depois de um corredor inteiro livre de gente, comemorando um gol que valia a classificação. Eu não sei quantas pessoas na minha vida eu abracei com tanta alegria quanto eu abracei aquela garota.

– E aí, cadê ela? Pegou o telefone? Se interessou por ela? Beijou? Pegou? Ou fez só amizade?

– Eu nem pensei nisso, cara. Ela era mais do que uma garota, era uma companheira de infortúnio. Um anjo guardião. Talvez eu tivesse pensado nisso se a zaga tivesse um pouco pra frente, se o Morales Bolívia chutasse na trave, se o juiz achasse que tava impedido, se alguém desse um bico na bola 10 segundos antes. Mas ninguém fez isso. E no último minuto de jogo, último minuto, Morales Bolívia empatou o jogo e tirou nossa classificação. [chora]

[olhos enchem de lágrimas]

– E eu não sei onde está aquela garota. Porque ela sumiu depois desse gol, como se tivesse sido um sonho bom interrompido por uma sirene de tristeza. Não consegui sequer vê-la de relance, no meio da massa de tristeza com as cores do nosso time. Eu queria dizer a ela: Escute, garota, se você estiver tão triste quanto eu estou, vem cá e me dá um abraço.

– Garçom, traz dois whiskies. Duplos. [E abraça o amigo]

__________

Baseado em uma conversa com grande amigo e ombudsman de vida Gito Salvador.

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