Cemitério de Elefantes

Depois de muito tempo longe, ele voltou de viagem. Queria visitar o local onde nasceu, fazia décadas que não ia lá. Era um bairro bucólico de uma cidade pacata, que estava em franco crescimento e ascensão. Reencontrar o passado era tudo que queria.

A rua de paralelepípedo, as casas que ficam nas vilas, a velha banca de jornal, a quitandinha da esquina, os meninos soltando pipa e jogando pião. Observar a pracinha com os jovens casais de mãos dadas, o sorriso alegre no rosto e o folclórico morador de rua que habita cada subúrbio.

O doce ar do subúrbio. Cercanias. Conjunto de aglomerações que cercam o centro urbano. Antes, denominação cheia de preconceito; hoje, parte do todo, tentáculo do centro. Onde antes se cultivavam grandes amizades e hábitos, sorrisos e causos, agora se vê uma massa uniforme parte do pântano cinza que virou o centro da cidade. Monocromático, sufocante.

Ele ficou pasmo ao ver como a memória afetiva foi destruída. O bairro bucólico da cidade pacata virou fumaça e engrenagem. A rua de paralelepípedos virou uma avenida movimentada, a quitandinha da esquina um hipermercado, as casas nas vilas viraram apartamentos de 20 metros quadrados, versão moderna e com eufemismo de um pombal, onde todos se espremem, buscando um mínimo de humanidade. Onde os jovens andavam de mãos dadas, as pessoas mal se olham, muito menos se cumprimentam.

Os meninos não soltavam pipa, nem jogavam pião. Andavam pra cima e pra baixo com cópias piratas do mais novo jogo de futebol para videogame. A velha banca de jornal deu lugar a uma casa de revistas asséptica, parecida com uma farmácia, que até remédios vendia. A pracinha virou ponto de drogas e os muitos moradores de rua nada têm de folclóricos.

Poluída ficou a lembrança dos tempos antigos. Ele, que deixou de visitar o local onde nasceu por tantos anos, teve vontade de chorar. As memórias que cultivou por tanto tempo voltaram ao lugar que nasceram para morrer. Cemitério de elefantes.  E ali morreram. E ele, nostálgico, chorou.

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