Certas Coisas Nunca Mudam

Eram dois meninos que cresceram juntos e foram parceiros inseparáveis nas mais diversas brincadeiras. No pique-bandeira, no futebol, na carniça, girando pião. Eram sempre a dupla a ser batida, a corda e a caçamba. Mas havia uma brincadeira em que eles ficavam de lados opostos: polícia e ladrão.

Enquanto um era polícia e astuto, prendendo todos os ladrões da brincadeira, o outro era a encarnação da gatunagem. Cheio de furtividade, se escondia nos lugares mais improváveis e usava de elasticidade que até poucos gatos tinham. Era comum que o menino policial ficasse procurando o menino ladrão por horas. Na verdade, o menino ladrão já tinha ido dormir, enquanto o menino policial ficava se revirando na cama, perguntando onde aquele traquina foi parar.

No dia seguinte, quando se encontravam sonolentos no colégio, riam e sempre havia aquela resenha. Entre as gargalhadas um dizia para o outro: “vou te pegar”, enquanto o outro retrucava “é ruim, hein?”. E sempre o ladrão escapava da polícia. “Certas coisas nunca mudam”, falavam as mães, amigas.

O tempo passou, os pais de um dos meninos se separaram, ele se mudou. O outro continuou estudando, adorava os livros. Cresceu, prestou concurso e virou policial, daqueles bons. Sentia saudade do amigo, queria reencontrá-lo para lembrar dos bons tempos e, tomando uma cerveja, dizer como é dura a vida de homem da lei, que anda na linha.

Certa vez, em uma ronda, observa um assalto à mão armada realizado por dois homens. O primeiro é dominado com facilidade, enquanto o segundo desaparece. Depois de mais de duas horas de busca, ele lembra dos tempos de polícia e ladrão. Com a experiência adquirida na academia, em um lugar ermo e deserto, encontra o meliante, aponta a arma para a cabeça do gatuno e grita empolgado: “perdeu, ladrão”.

Quando o ladrão se vira, os olhos se fitam. As expressões se reconhecem. Depois de tanto tempo, se reencontram. Polícia e ladrão, como há duas décadas atrás. Se estudam, não dizem uma palavra. Os olhos do policial marejam, o ladrão não segura as lágrimas. Se conhecem. Um não pedirá clemência, porque sabe o quanto vai ferir o outro. O criminoso suspira fundo e diz “perdi”.

O policial o observa mais um pouco e abaixa a arma. O ladrão não fala nada. Nada recebe em troca. Neste momento, nada é tudo. Se olham demoradamente mais uma vez, saem cada um para lados opostos, viram as costas. Pensam nas mães, já enterradas. Com consciência tranquilamente intranquila, sorriem pela primeira vez, sem se olhar.  Sabem que depois de tantos anos, muita coisa mudou. Mas certas coisas nunca mudam.

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2 opiniões sobre “Certas Coisas Nunca Mudam

  1. Numa cidade muito longe, muito longe daqui / que tem problemas que parecem os problemas daqui… (Arlindo Cruz – Polícia e Bandido)
    Ainda que o texto não seja uma livre inspiração na canção acima destacada, posso dizer que remeteu a ela. A vida dá muitas voltas, as pessoas crescem, criam, procriam, aproveitam a vida ou a deixam passar. Mas é fato que certas coisas nunca mudam, o que pode ser bem ruim em alguns casos.
    Parabéns pelo texto.

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