Siri

Corria a noite do dia 31 de dezembro. Era um reveillon animado no Rio de Janeiro. O som do pagode de Jorge Aragão rolava solto e um mar de gente vestido de branco esperava dar meia-noite para dar seus pulinhos no mar, jogar suas palmas e fazer seus pedidos para Iemanjá.

No meio daquela festa e alegria, um casal estava curtindo sua noite, desejando um ano vindouro melhor. Ele, baixinho e atarracado, na dele, sem alarde; ela, cheia de curvas como a estrada de Santos. Ambos suburbanos. Na praia lotada, só eles importavam. “Santo, secreto, sagrado amor”, dizia o Aragão.

Depois do beijo de reveillón e dos votos de Feliz Ano Novo, ele vai buscar um refrigerante para sua amada. Naquela muvuca, consegue encontrar um vendedor e faz a compra. Quando volta, vê sua morena alta, bonita e sensual cercada por um pitboy da orelha de repolho, que puxava o cabelo cacheado da guria com fúria.

Chegou perto da amada e tentou contemporizar, mas o pitboy o empurrou. Não bastasse isso, ainda gritou: “Sai daqui, seu corno”. Sorriu sadicamente, enquanto o suburbano se desequilibrou e caiu na areia.

Há um dito popular que diz que remédio para pitboy é suburbano. Você não vê notícia de suburbano apanhando de rato de academia. Briga de rua em subúrbio é coisa séria. Briga-arte, briga moleque, briga soco y me voy. Quando ele se levantou, veio pra cima do playboy de orelha de repolho mais rápido do que metrô saindo da plataforma.

O pitboy tentou dar uma baiana, mas estava meio doidão. O suburbano se esquivou e deu com a lata de referigerante na cabeça do oponente. Emendou com um soco no pau do nariz, daqueles que deixou o orelha de repolho mais tonto do que Blanka com estrelinhas no Street Fighter II.

Arremeteu com uma banda, montou no pitboy, e aplicou um monte de socos no nariz do cara. Se o praticante de jiu jitsu não estivesse grogue, diria que foi vítima de ground and pound. Para o suburbano, ele só estava apanhando muito.

Nestes minutos que pareceram uma eternidade, a turma do deixa disso chegou para separar. O suburbano foi abraçado pela amada,  parecia figurante de comercial do Campari, com a blusa repicada de sangue do pitboy. O orelha de repolho estava estirado no chão, e foi se arrastando até a baliza de um campo de areia, onde ficou deitado, sem forças para levantar.

A história não acabou. Enquanto o pitboy tentava recuperar as forças, um siri – sim, aquele, um crustáceo calmamente estava na areia. Se aproximou do corpo inerte e machucado do lutador fajuto e começou a beliscá-lo incessantemente. Não foram poucas as pessoas que ouviram o orelha de repolho praguejar: “Porra, siri, até você?!” “Peraí, siri” “Até você, siri? Puta que pariu, siri. Dói muito!” “Aiaiaiaiai”. Consta que alguém não teve um bom começo de ano novo.

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Baseado em fatos reais e relembrado em uma conversa com dois grandes amigos de mais de uma década, em um domingo de sol na Terra Mãe.

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2 opiniões sobre “Siri

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