Lâmina Indomável

Ele pára em frente ao espelho e a acaricia pela última vez. Se despede como num velório. O fim de uma parceria é sempre uma pequena morte. Cortar laços é preciso. Seguir em frente também. Ela ficará na memória, até que surja outra. Foi companheira durante muito tempo e bons momentos. Ela, a barba. Amputada pela lamina indomável.

Para um homem que cultiva a barba, retirá-la é equivalente ao divórcio. Aparar a barba é como aparar as arestas do relacionamento. A companhia que ela faz é importante. Como um escudo, segue o seu parceiro por onde quer que vá.

Só que há momentos em que aparar não basta. Escanhoar é pouco. A solução deve ser radical. Passar a lâmina e cortar. Indomável. Se for inevitável, que caiam os pingos de sangue. Que irrite. Que inflame. Que arda. Não se pode sentir pena. Se faz o que deve ser feito.

Olhando no espelho a cara lisa, ensangüentada e marcada, muitas coisas passam pela mente. Lembranças, sorrisos, lágrimas. Quando as cicatrizes estão assim, evidentes, profundas, é hora de encarar a dor. Passar o bálsamo que explode a dor, mas fecha as feridas.

Para que em breve, tudo nasça de novo. Para que se acaricie pela primeira vez. Para que se abra o sorriso como num parto. O início de uma parceria é sempre um berçário. O primeiro sentido dos segundos. Para que se fortaleçam laços. Para que sigam em frente juntos. E haja companhia por muito tempo e bons momentos. Até que a lâmina volte a ser indomável.

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