Nada Foi Como Antes

Onze de Setembro já virou data cabalística. Uma série de documentários foram feitos para falar do 11/9/2001, com as Torres Gêmeas caindo. Muita gente lembra perfeitamente onde estava na manhã daquela data, com riqueza de detalhes. Entretanto, para mim e milhares de moradores do subúrbio carioca, esta data não ficou marcada no ano de 2001, mas em 2002.

O 11.09.2002 começou oito anos antes. Mais precisamente em 03.07.1994. Copa do Mundo dos Estados Unidos rolando, Romênia x Argentina pelas oitavas de final, no Rose Bowl. Quando Abel Balbo marcou o segundo gol albiceleste, insuficiente para tirar a vitória romena, começava uma das maiores histórias de traição do crime no Rio de Janeiro…

… o assassinato de Orlando Jogador e seus comparsas por Uê, antigo aliado que virou algoz. O fato transformou Ramos, Olaria, Penha, Bonsucesso, Higienópolis e Maria da Graça numa grande Bagdá. Pela primeira vez a população era confrontada com um cenário de guerra civil. O tiroteio incessante durou a madrugada inteira, que mais pareceu o tempo de uma vida inteira. Não foram poucas as pessoas que dormiram embaixo da cama – eu inclusive.

No dia seguinte, ao ir para o colégio, me deparo com um carro com cinco corpos degolados no ponto de ônibus. Cenas com seres humanos mutilados se repetiram nos bairros citados. O horror da guerra estava ali, diante dos olhos incrédulos e pacatos dos suburbanos. O inferno. Nu, cru, ensanguentado. Nada foi como antes. A inocência do subúrbio carioca acabava ali. A malandragem mudava de sentido. A fratura exposta do crime organizado se subdividindo. O desejo de vingança latejando na alma dos aliados de Orlando Jogador…

… foi finalmente concretizado oito anos depois. No presídio de segurança máxima de Bangu 1, o Comando Vermelho procedeu uma chacina vingativa com requintes de crueldade. Dominaram os guardas e invadiram a ala destinada aos rivais do Terceiro Comando e dos Amigos dos Amigos. Fernandinho Beira-Mar, líder e artífice da vendetta, ao matar Uê e seu aliado Orelha, gritou com satisfação: “As duas torres já caíram”.

Enquanto isso, no lado de fora, as ruas do subúrbio estavam escuras. O comércio fechado. Não se ouvia nada, apenas o barulho do vento. O tempo parou. Em plena campanha política presidencial, aquele pedaço do Rio de Janeiro se tornou alheio ao Brasil. O subúrbio era a letra do Sistema Negro: aqui, meu irmão, é cada um por si; se sei, digo não sei, se vi, digo não vi. Voltar pra casa na noite de 11 de setembro de 2002 foi uma aventura, que poderia ter se transformado em uma desventura. Um silêncio sepulcral no coletivo.

Todos eram suspeitos aos olhos dos outros. O medo do ônibus ser incendiado. O preconceito social que virava racial. O ar de chumbo da tensão. Só se escutava o ofegante e ansioso barulho da respiração. Não havia pagode no banco do ônibus. Não havia ninguém imprensado. Os segundos viraram horas. Mais uma vez, como em 1994, a madrugada pareceu durar uma vida inteira, só que em vez de balas, o silêncio precedia o esporro, que naquele dia não veio.

E durante uma semana foi assim, com o clima de medo, a terra arrasada, a vergonha de ter sido violado no que é mais importante. Depois, a ferida aberta começou a criar casca, sempre remexida quando haviam tiroteios, chacinas, comércio fechado. O terrorismo voltou a se incorporar ao cotidiano. Quando se incorpora, vira comum. Um misto de conformismo e resignação. Nada foi como antes. Agora, o subúrbio era assim, e antes não existia mais.

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2 opiniões sobre “Nada Foi Como Antes

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