Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo II – Reveillón

[Nada escrito neste texto é inverídico. Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência. São depoimentos reais de cafajestes atuantes, em remissão, aposentados, mas sempre, sempre com o gene da cafaestagem como dominante]

31 de dezembro de 2002. Véspera de reveillón. Quase todos os amigos namorando. Ele estava solteiro. Um cafajeste solteiro nunca é problema. Já dizia a filosofia das mulheres hortifrutigranjeiras que “solteiro sim, sozinho nunca”. Essa máxima rasteira de botequim pé-sujo seria a tônica daquela noite.

Recebe o telefonema de uma amiga. Haverá uma festa de reveillón. Copacabana. Inclusive, uma família amiga dela estará lá. Ingleses. Pai, mãe, duas filhas. Uma, muito gostosa; outra nem tanto. Buchecha diria “oh, yes”. Ele também. Quando a oportunidade surge, não se pode desperdiçar. É a Lei de Romário, mas sempre amparada pela famosa Lei de Gil – vale tudo, só não vale… Hora de se arrumar.

Se encaminha para a festa, de branco, e encontra os amigos. Quase todos comprometidos. As inglesas, solteiríssimas. Os pais delas ao lado. Engata uma conversa em um inglês com sotaque de Antigua e Barbuda. Elas compreendem ou fingem que compreendem. Conforme as cervejas descem, ele parece um Sheakspeare. Gasta o idioma. Ou melhor, finge que gasta. Álcool sempre foi um estímulo para a [in]fluência.

A hora passa, já são quase dez da noite. No meio da conversa animada, canta a britânica mais gostosa. Nada. Toco. Mas o que é um toco nessa vida? O não você já tem, o sim é a meta. Sem forçar. Tem de vir naturalmente. Macio, suave, arte, moleca, toco y me voy. A idéia era essa. Naquela Guerra das Malvinas particular, la mano de Diós y la idea del canalla tinham de prevalecer.

Quando dá onze e meia, todos descem para a praia. Copacabana está lotada. Nas areias do Posto 6, ele tem uma idéia. Vai colocá-la em prática. Observa os amigos, calcula os riscos, a cafajestagem precisa da criatividade. Ela – a criatividade – será utilizada. A hora é agora.

Olha para a mais gostosa das inglesas, engata o caô: “no Brasil, à meia-noite do reveillón, há o costume de homens e mulheres se beijarem na boca, celebrando o ano novo. Assim passam boas energias.”. Ela cochicha alguma coisa com a família. O amigo ao lado olha incrédulo. Os outros estavam comprometidos e apenas riem, maliciosamente.

Quando dá meia-noite, começa a explosão dos fogos. Os amigos comprometidos olham as companheiras nos olhos, desejam “Feliz Ano Novo”, e dão um baita beijo. Ele olha a inglesa gostosa, ela também o fita. Abre o sorriso, diz “Happy New Year” e dá um baita beijaço também. A irmã dela, menos gostosa, vulgo baranga, olha pra ele, diz “Happy New Year” e sapeca um beijo também. A mãe delas larga o marido, diz “Happy New Year” e o beija também! O marido apenas sorri. O amigo que olhava incrédulo aproveita e sai beijando as inglesas. É “Happy New Year” para lá, para cá, em cima, embaixo e puxa e vai.

Ao fim dos fogos, ele permanece com sua inglesa ao lado. Naquele dia, a Guerra das Malvinas estava ganha. O amigo ficou com a outra inglesa, a mais feia – não teve a idéia, não pode escolher. Foi um dos melhores começos de ano para aqueles amigos. E virou história dos Diários Secretos da Cafajestagem.

______________

Se você perdeu o Capítulo I, leia aqui

Anúncios

19 opiniões sobre “Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo II – Reveillón

  1. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XVI – Das Fraudes | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Pingback: 301 | Cotidiano e Outras Drogas

  3. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XV – Cachê | Cotidiano e Outras Drogas

  4. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIV – Putão | Cotidiano e Outras Drogas

  5. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XIII – Miscelânea | Cotidiano e Outras Drogas

  6. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XII – A Toalha | Cotidiano e Outras Drogas

  7. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo XI – O Consórcio | Cotidiano e Outras Drogas

  8. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo X – O Churrasco | Cotidiano e Outras Drogas

  9. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo IX – Churrasco | Cotidiano e Outras Drogas

  10. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo VIII – Nome Artístico | Cotidiano e Outras Drogas

  11. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo VII – Cultura da Sacanagem | Cotidiano e Outras Drogas

  12. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo VI – Urucubaca e Pênalti | Cotidiano e Outras Drogas

  13. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo V – Impedimento | Cotidiano e Outras Drogas

  14. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo IV – Evidências | Cotidiano e Outras Drogas

  15. Pingback: Diários Secretos da Cafajestagem – Capítulo III – A Falha | Cotidiano e Outras Drogas

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s