Vinil

Sempre fui apaixonado pelo silêncio. Gosto da quietude. Mas tenho uma relação íntima com os sons. Relembrei isso vasculhando uns papéis e documentos antigos em casa. Não me recordo quando começou. Provavelmente em 1987, 1988. Quando roubei um disco da velha, o “Sentinela”, de Milton Nascimento, de 1976, que começava com cantos gregorianos.

Os furtos dos discos maternos começaram a ficar mais freqüentes. Um duplo do Beto Guedes, coletânea, de capa rosa. “Construção”, do Chico Buarque, o “Houses of Holy”, do Led Zeppelin, que tem minha música preferida de todos os tempos, “Rain Song”. O “Dois”, da Legião Urbana, que virou moda criticar, mas na minha quase velha idade, foi inegável referência.

Naquele velho aparelho CCE, muito xexelento, que ganhei de terceira mão, vários discos de vinil foram me ensinando acordes, afinações e sons. A agulha rasgando a superfície e aprofundando os sulcos para produzir expressões seriam a metáfora corriqueira do futuro, a cicatriz como combustível para a evolução.

Quando os discos eram bons – e até quando não eram tão bons – passava o conteúdo para a fita K7 e ficava ouvindo as músicas preferidas, até a fita arrebentar – ou enrolar no tape deck, o que era motivo de muxoxos e tristeza.

Quando chegou o ano de 1991, finalmente comprei meus primeiros discos de vinil. Lembro até hoje quais foram os discos: “X”, do INXS, “Violator”, do Depeche Mode, “Ó Blesq Blom”, dos Titãs, “As Quatro Estações”, da Legião Urbana e o disco que mais me chapou, “The Real Thing”, do Faith No More. Lia e devorava os encartes, cantava junto, tentava aprender o significado das palavras em inglês com um dicionário do lado e, quando dava, comprava as “Letras Traduzidas”, da Bizz.

E de tempos em tempos, comprava ainda mais discos, alguns preferidos até hoje, como a dupla fantástica “Sweet Oblivion”, do Screaming Trees e “Ten” do Pearl Jam. Cheguei a ter umas duas ou três dezenas de vinis. Depois, veio a geração digital, o CD, o PC DX2 66, a vida adulta, a modernidade no lugar do ludismo, os sofrimentos, as máscaras, as mudanças. Meus vinis, meus primeiros amigos, se perderam pelo caminho, junto com alguns amigos de carne e osso, inclusive.

Constato isso com tristeza. A mesma que me atingia quando um LP estava arranhado, engasgado. Me mareja os olhos ver que certas coisas simplesmente se perdem ou fogem, sem culpados, do controle e das vistas. A saudade vira nostalgia dolorosa.

Hoje em dia, tudo é digital. Vejo algumas pessoas muito queridas resgatarem e ouvirem os LPs com entusiasmo. Eles têm toda razão. É preciso recuperar aquele som diferente, vivo. Mais sinais analógicos, quase orgânicos, de forma simples, direta, sem codificações enigmáticas e complexas. A nossa vida precisa ser mais vinil. Eu devia comprar uma vitrola…

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4 opiniões sobre “Vinil

  1. Pingback: Reencontrando os Gigantes | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Tenho uma coleção de quase 300 discos de vinil que eu e meu falecido irmão compramos ao longo dos anos, nem vou falar pra você das relíquias, mas minha garrard da gradiente ainda toca deliciosos sons analógicos! Obrigado por reavivar lembranças!

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  3. Rá, fazia tudo igual. Mas eu usava mais as fitas pq o meu pai era fresco com os vinis e não me deixava ficar mexendo. Quando eu fiz 10 anos, me deu de aniversário um som com tape e rádio. E só me comprava fitas, em vez dos vinis. O “Dois”, por exemplo, eu tinha em K7 com vantagem, que era uma versão tosquérrima de “Química”.
    Meu primeiro vinil que eu fui lá e comprei foi o “Dirt” do Alice in Chains, com 14 pra 15 anos. Tenho poucos. Embora, hoje, tenha toda a coleção do velho – e, talvez por isso, uma certa aversão aos vinis, pelas lembranças que eles trazem.

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  4. “Lia e devorava os encartes, cantava junto, tentava aprender o significado das palavras em inglês com um dicionário do lado e, quando dava, comprava as “Letras Traduzidas”, da Bizz.” – Cláudia, é você???

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