A Pena do Ciúme

E Paulo Henrique se foi do Santos. Ganso migrou para o São Paulo. Depois de uma negociação que ganhou contornos de novela das 7, as curicas se entenderam e o meio-campo defenderá o time do Morumbi a partir de agora. Neste surrado assunto, ainda cabem ponderações.

Primeiramente, esqueça a vilanização do São Paulo. O clube foi lá, colocou o dinheiro na mesa, comprou de quem quis vender. Foi mercantilista. Futebol: ou é por amor, ou é por dinheiro. A parte do amor no futebol se resume à arquibancada e a alguns poucos, muito poucos, jogadores. Nada chocante, nada complexo.

Voltemos ao cerne da questão. Não foi dinheiro, foi desprezo. A história foi escrita com a pena do ciúme. O mais torpe dos defeitos, o maldito ciúme que envenenou Paulo Henrique Ganso. E não é um roteiro inédito. Em 1899, Machado de Assis já tinha preconizado trechos dessa história, cheia de ironias. Realista, como não?

Como num Dom Casmurro litorâneo, Ganso, paraense, homem de hábitos reclusos e calados, praticamente um Bentinho. Começou a brilhar nas categorias de base do clube, que nesta história toda é a Capitu, objeto de desejo. Ganhou espaço, cresceu e vestiu a camisa 10, casamento perfeito.

Por outro lado, veio o menino Neymar, o sonic caiçara, melhor amigo de Paulo Henrique nos gramados. O perfeito Escobar, que cresce na história e ganha toda a atenção de Capitu. Tudo para Neymar. Mulheres, dinheiro, iates, dinheiro, comida, dinheiro. E para Ganso? Nada.

Seus joelhos frágeis que lembram palafitas nos igarapés começaram, aos olhos do presidente do Santos, a falar mais alto do que sua técnica. Enquanto Neymar amealhava dinheiro e idolatria, Ganso fazia cirurgias, era chamado de mercenário e apupado pela torcida – com razão, diga-se, pois entrava muito pouco em campo.

Tudo que ele queria era o mesmo tratamento, mas os resultados em campo eram muito diferentes. A relação foi tomada por rejeição, preferência e ciúme, em doses cavalares. O que era fadado ao final feliz se transformou em fracasso, tragédia.

A partir daí, a semelhança com o romance de Machado de Assis fica em poucos traços. Ninguém morreu, Ganso foi embora e Neymar continua brilhando no Santos. Todas as partes dessa história tem olhos de cigana oblíqua e dissimulada. O divórcio escancarado e litigioso encerra o capítulo daquele que poderia ter sido um dos grandes jogadores da história do Santos, mas foi apenas mais um.

Enquanto isso, o futuro continuará escrevendo trechos dessa história. A única certeza é que o Santos ficou com uma bolada de dinheiro e não só os olhos, mas com a ressaca inteira. Ao clube, resta aguardar as conseqüências – positivas ou negativas – dessa inevitável separação.

Quanto a Paulo Henrique Ganso, pode ser que ele, tal e qual o Conde de Monte Cristo, se vingue de todos. Pode ser que se isole na busca de um sonho, como o pescador Santiago, de “O Velho e O Mar”. Quem sabe? Há muitas hipóteses, e por ora, são apenas especulações. Afinal, como disse Machado, que sabia das coisas, a alma é cheia de mistérios.

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3 opiniões sobre “A Pena do Ciúme

  1. Pingback: 201 | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Baita texto , mas não concordo em partes . Ganso não queria jogar no Santos , tanto que ele mesmo admitiu que recusou propostas de renovação . O Santos se esforçou para que ele permanecesse no clube , ele não quis . De certa forma essa “traição” é igual a de Van Persie com o Arsenal . Só o torcedor do Santos entende o que ele estava fazendo no clube . Criou um ambiente péssimo , fazia um migué danado… Que se vá ! E outra : Não tem como pagar o mesmo de Neymar , já que o Santos só dá a ele metade do salário . O resto vem de patrocínio .

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