A Hora da Verdade

Naquele momento, não havia muito a ser dito. Olhava fixamente para o teto, relembrando todos os momentos desde que se entendia por gente. O primeiro sorriso, o primeiro beijo, a primeira lágrima justificada. Os olhos marejaram.

A família toda reunida naquele momento, que talvez fosse o último. Tudo funcionava com dificuldade. Alguns poucos amigos ainda de pé, o saudavam com resignação. Imaginava que muitos outros estariam do outro lado, com o sorriso no rosto dos áureos tempos. Se há alguma coisa boa em acreditar na outra vida, é imaginar o rejuvenescimento.

Não pediu extrema-unção. Acreditava em Deus, mas não acreditava que nenhum humano pudesse fazer as vezes d´Ele. Durante a juventude e a maturidade, muitas vezes imaginou aquele momento. O que aconteceria? Fecharia os olhos e simplesmente acabaria? Fitaria a morte nos olhos, como em uma música dos Gutter Twins? Ou apenas acabaria, assim, sem entrelinhas e misticismos?

Lembrava daquele caso do ateu que, temendo encontrar Deus caso existisse, deixou crescer o bigode. “Vai que ele não me reconhece”. Tentou sorrir, não tinha forças. Mantinha a barba mal feita, traço desde a adolescência. Não devia nada a ninguém, não iria mudar. Todas as virtudes e pecados foram feitos em sã consciência.

Construiu família, fomentou caminhos. Todos estavam endereçados na vida. A companheira de sempre já tinha partido. Aliás, era um sonho dela, morrer antes para que não sofresse com a perda dele. Ele, ao contrário, suportou a ausência dela com dignidade e dor. Muita dor. Companheirismo, seja por amor ou amizade, é das mais belas e necessárias muletas da vida, mais que qualquer religião.

O único medo que tinha era de morrer só. Todo mundo morre só, mas sem eufemismos e sem delongas, a solidão é uma merda. Abriu os olhos já cansados e fixou o foco. Viu que grande parte daqueles que o amavam estavam ali. Fechou os olhos. Conseguiu ver mais outra boa parte daqueles que o amavam, dentro de si.

A força dos seus pensamentos parecia nítida. Escutava os sons que marcaram sua trajetória, como se o ninassem. De repente, os ruídos foram ficando mais fortes e evidentes. Para ele, como trilha sonora de um rápido filme que passava em sua mente; para quem estava de fora, o som dos aparelhos hospitalares frenéticos denunciando que algo estava errado.

A respiração entrecortou. Fechou os olhos. Esboçou um sorriso. Deu um suspiro. De todas as verdades – relativas – que aquele momento gerou, a única certeza absoluta foi que a hora da verdade chegou.

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2 opiniões sobre “A Hora da Verdade

  1. Pingback: Cem/Sem | Cotidiano e Outras Drogas

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