Setembro Negro

Um final de semana que deixou gosto amargo em quem ama o futebol. Onde todos os motivos para se amar o esporte foram subvertidos. Onde a fé na humanidade e o amor pelo esporte sofreram mais um abalo.

Começou com a postura tenebrosa do árbitro Vuaden no Recife, nos Aflitos. Na terra onde Frei Caneca criou o Typhis pernambucano, foi ícone da Confederação do Equador e foi morto pelos anseios de liberdade. Onde nasceu a república brasileira, através da batalha dos Montes Guararapes. A Veneza brasileira presenciou um atentado contra a liberdade e a favor da vergonha.

Um bando de policiais pernambucanos, sempre truculentos no dia-a-dia, como cachorros vadios e submissos, obrigou dois torcedores a tirarem uma faixa que não dizia nada mais que a verdade, por puro capricho de um juiz medroso, medonho e autoritário. Talvez não  derrubem os amantes do esporte no apito, mas tentam cercear nosso direito e derrubar nossa liberdade.

[Aliás, parêntese: Nunca antes na história desse país se deu tanta importância ao árbitro. Um monte de comentaristas péssimos de arbitragem pagos para comentar o replay, reforçando o corporativismo e dando sempre razão ao apitador – exceto quando ele apita contra a seleção, curiosamente. Fecha parêntese.]

Do sábado no Recife, para os arredores do Engenhão domingo, estádio encravado entre diversas ruas estreitas, perfeitas para um arranca-rabo entre torcedores. Mas sobre torcidas organizadas, a síntese de um domingo de pancadaria é esta. Com sorte, o final – como neste domingo – não é escrito com tinta vermelha

Das ruas do subúrbio carioca para as arquibancadas do Couto Pereira, onde marginais frustrados, travestidos de torcedores do Coxa, quase espancam uma menina que queria a camisa de um ídolo do time rival, como se isso fosse motivo para linchamento. Talvez ela torcesse pro São Paulo, mas e daí?

Com base num fanatismo ridículo, esses mesmos caras fatalmente apoiaram a barbárie de 2009. E com toda certeza, esses mesmos caras, no mano a mano, um contra um, tremem, se borram. Só são valentes em grupo, o que diz muito sobre este tipo de gente, que existe em todas as torcidas, de todos os times…

… e nem sempre está travestida de torcedor, pode estar vestida com aparato oficial, como os brigadianos gaúchos que estavam abusando do seu poder, foram filmados e reagiram com violência, coagindo e humilhando o torcedor que presenciava e filmava a cena.

Falando em cena, houve ainda o caso do escocês ameaçado e achincalhado por usar uma camisa do Celtic no Pacaembu, porque ela é verde. E o escocês, que já viu rivalidade extrema no Old Firm, por uma questão religiosa, não deve ter entendido nada. Afinal, rivalidade cromática pura e simples é algo esquisito.

[Mais um parêntese – está virando moda esse negócio de parêntese: Claro que certas situações podem ser evitadas nesta transição com um mínimo de bom senso, mas este bom senso tem de vir do poder público preparado para isso, enquanto medidas educativas são tomadas para civilizar o torcedor. Ou, melhor dizendo, civilizar o cidadão.]

Todos estes fatos são assustadores e deveriam ser combatidos, modificados e – pela educação – banidos frontalmente. Mas como pedir ajuda da Confederação, se esta é comandada por José Marin, filhote da ditadura, que começou a vida política em um partido fascista – o PRP de Plínio Salgado – foi governador biônico e andou sempre de braços dados com o poder da repressão?

[Vamos abrir outro parêntese aqui – mais um parêntese? É, mais um: É muito interessante – para não dizer decepcionante – que redes de imprensa que foram tão combativas – com razão, diga-se – para pedir a queda de Ricardo Terra Teixeira se mostrem tão silentes e complacentes com o atual status da Confederação Brasileira de Futebol. Fecha parêntese.]

Neste fim de semana, o Brasil encontrou seus maiores demônios em estádios de futebol. Os capirotos que andavam soltos e impunes nos anos 60, 70 e 80. Censura, agressão, intolerância, subserviência. Mais uma vez, o demônio sapateou em cima da nação.

Um misto dos nossos anos de chumbo, onde todos os meses eram escuros e opacos, com o Setembro Negro, que entre muitos atentados fez o mais mirabolante deles com terrorismo esportivo, em Munique. Estamos sofrendo constantemente cortes na alma, no futebol e fora dele, dia após dia. Nossa inocência, indignação e inconformismo estão se afogando no mar de hipocrisia da sociedade em que vivemos.

No nosso setembro negro, não morreu ninguém, a não ser a nossa dignidade e nossa liberdade. A frase está mal escrita: Neste fim de semana, no nosso setembro negro, todos, que gostamos de futebol, sofremos um atentado terrorista. Todos nós morremos um pouco mais.

_________

Para ler os assuntos acima de forma detalhada, seguem os brilhantes textos
abaixo:

De Bruno Bonsanti: http://bonsanti.blog.uol.com.br/arch2012-09-30_2012-10-06.html

De Felipe Lobo: http://trivela.uol.com.br/colunas/nao-matem-o-futebol

De Thiago Arantes, com participação de Rodrigo Salvador: http://espn.estadao.com.br/post/284549_cusparada-agressao-choro-e-a-policia-imovel-o-absurdo-no-couto-por-quem-estava-la?timestamp=1349067221022

De Fabio Chiorino: http://www.esportefino.net/a-falencia-moral-do-futebol-brasileiro/

E no twitter @finomaravilha, o relato sobre a confusão do RS em detalhes.

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3 opiniões sobre “Setembro Negro

  1. Pingback: 201 | Cotidiano e Outras Drogas

  2. Pingback: Intolerância | Aleatório, Eventual & Livre

  3. Sou torcedora do Atlético Paranaense e não estou aqui para achincalhar o coxa, pelo contrário. A torcida do rival tem histórico violento, mas a do Atlético não pode ser considerada santa. Vi muitos torcedores de outros times apanhando (de verdade) por estarem em meio à torcida rubro-negra. Infelizmente tenho que aconselhar aos visitantes a usarem roupas com as cores do CAP, porque até se usar vestuário colorido pode arrumar encrenca. É triste a situação, e mais triste ainda é ver muita gente defendendo a barbárie.

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