Alma Sebosa

Desde pequeno tinha alguma coisa errada com aquele menino. As traquinagens dele eram mais pesadas do que o normal em uma criança. Maltratava e enforcava animais de estimação, pregava sustos em velhinhas, batia em todos os coleguinhas com uma maldade requintada. Uma das tias da vizinhança vaticinou: “Este garoto é uma alma sebosa, benza Deus”. E fez o sinal da cruz.

Foi crescendo e cada vez mais sua índole piorava. Virou o valentão – e repetente – do colégio. A engenhosidade que tinha nos planos malignos faltava nas lições de matemática e português. Era chamado de burro pelos coleguinhas e respondia com a força de um cavalo. Ganhou respeito pela grosseria e passou a liderar os vagabundos do colégio.

Nesta época começou a conhecer as menininhas que se impressionavam com seu tamanho e sua força. Virou o dono do pedaço. Conheceu gente que lhe ofereceu um loló, depois maconha, um pulo pro crack. Começou a consumir, depois a traficar e nunca parou de bater, sem jamais apanhar.

Depois de um breve tempo, estava manejando armas e praticando assaltos. Já era temido na comunidade, já não reconhecia mais a mãe. Num tiroteio, matou aquela que havia traçado seu codinome há tempos atrás. Antes de morrer, a senhorinha balbuciou novamente: “Este garoto sempre foi alma sebosa”. Desta vez não deu tempo de fazer o sinal da cruz.

Começou a ser temido pelos subúrbios. Matava com crueldade desmedida, humilhava, ofendia. Ganhou o temor dos moradores humildes e o ódio e rancor da maioria dos bandidos. Toda vez que ganhava uma boca de fumo nova, fazia questão de matar o antigo dono e possuir sua esposa de fé, muitas vezes contra a vontade da mesma.

Se sentia imortal e imbatível. Numa discussão, matou o antigo chefe da boca que lhe deu confiança e virou o novo líder. Aproveitou o ensejo e estuprou a irmã dele, de todas as maneiras. Quem bate esquece, quem apanha não. Num dia, festa regada a pó e cachaça, o disque denúncia dá o caminho e a polícia estoura o esconderijo. Tenta negociar com o meganha, recebe um tapa na cara de troco; ele era colega de escola do traficante morto.

Quando chega no presídio, fazem questão de anunciar que Alma Sebosa estava ali, e o que ele tinha feito com a irmã de seu ex-chefe. Os antigos companheiros do traficante morto lhe entregaram um presente: kit com batom, adesivos de depilação, meia calça, calcinha vermelha fio-dental, peruca. Tentou gritar e argumentar, ser valente, mas foi espancado com gosto e vontade.

Durante uma semana, Alma Sebosa foi seviciado, molestado e violentado constantemente. Virou travesti e noiva oficial da Ala 3 do presídio. Meliantes de diversos setores da cadeia trocavam cigarros, celulares e comida pelo prazer de dominar o desafeto.

Passou a ser conhecido como Alma Sedosa, sempre apanhando, jamais batendo. Dos tempos de tirania, não restava nem a altivez. Amanheceu enforcado na cela, maltratado como os bichos de estimação da sua infância. E ninguém fez o sinal da cruz.

Anúncios

Uma opinião sobre “Alma Sebosa

Agora pare: Escreva um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s