O Jornaleiro

Todo dia, durante trinta anos, a rotina era a mesma. Abrir a banca às 5 da manhã, esperar os jornais chegarem, ajustar as revistas, dar “bom dia” a todas as pessoas da vizinhança que passavam. Tradição de família, tinha herdado a banca e o gosto pela leitura do pai. O filho não quis seguir na profissão, e ele respeitou e apoiou. Mesmo assim, fez questão de transformar o rebento em ávido consumidor de informações.

Foi ali que viu a ditadura cair, como foi ali que seu pai tinha visto a ditadura nascer. Seu velho apoiou os militares, ele só queria a liberdade. Foi ali que conheceu o rock inglês, mas aprendeu a respeitar os seresteiros que seu pai tanto escutava – e cantava. Lia tudo. De tudo. Sem preconceitos. Só não gostava dos obituários de jornais, pois achava muito mórbido.

Naquela banca fez amizades para toda a vida. Pais, mães, filhos, agora até netos, todos compraram ali. Alguns se conheceram ali em frente. Médicos, engenheiros, advogados, músicos, pedreiros, jornalistas, desempregados, vagabundos, gente de todas as classes e todos os tipos. Que sempre retribuíram aquele “Bom dia” com um sincero e genuíno sorriso. Aquela alegria sempre foi combustível para continuar trabalhando, dia após dia.

O tempo passava para todos e passou para ele também. A velhice foi chegando, a modernidade veio de forma diretamente proporcional. A sociedade foi ficando mais carrancuda. Mas sempre haveria aqueles que respondiam ao “bom dia” com o sorriso reconfortante.

Um belo dia, todos notaram que a banca não abriu. No dia seguinte, também não. Ele tinha morrido. Todos sentiram sua falta. Muitos choraram. O seu nome não saiu no obituário. Ainda bem, ele ficaria ofendido, era a única leitura que dispensava. O bairro ficou mais sisudo.

Meses depois, a banca reabriu. O filho desistiu de desistir de ser jornaleiro. Um tanto como homenagem, um tanto como vocação, seguiu a linhagem da família, consumindo e distribuindo avidamente informação. “Bom dia”, disse ele para a senhora que passou. E ela, reconhecendo o timbre de voz, abriu um largo sorriso.

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4 opiniões sobre “O Jornaleiro

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