Manual Noveleiro

Mais uma novela das oito vai acabar. Mais uma vez o Brasil vai parar. O mundo muda, até o horário do folhetim muda – o que era às oito hoje começa às nove – mas certos hábitos da sociedade brasileira permanecem inalterados.

O mais importante nisso tudo: Fazer novela dá grana. E não é pouca. Dramaturgo de folhetim é a profissão mais bem paga no Brasil. Sendo assim, vamos apresentar um manual para que você, leitor, se torne um autor cheio de dinheiro – e possa nos doar um l´argent futuramente. Acompanhe os estilos abaixo e escolha o que mais se adapta à sua escrita.

Para ser um autor estilo Benedito Ruy Barbosa: Escreva textos passados no Pantanal, na Amazônia, nos dois, na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapê. Coloque algumas gostosas tomando banho de rio, tenha o Sergio Reis contracenando com o Almir Sater, coloque um diabo escondido em algum canto, como se fosse o Geninho da She-Ra, tenha duas famílias antagonistas e faça os filhos de cada uma delas se apaixonarem. Na trilha sonora um sertanejo clássico e você tem sua novela montada.

Para ser um autor estilo Manoel Carlos: Seu texto se passará no Rio de Janeiro. Sua trilha sonora terá bossa nova. Sua atriz principal sempre terá o mesmo nome em todas as novelas. Você terá um núcleo jovem, um núcleo de subúrbio e uma menina mimada fazendo maldades, provavelmente contra velhinhos. A Elisa Lucinda também será sua personagem, assim como alguém da moda, como modelo ou ex-BBB. Tentará ser um texto liberal, mas no fim das contas será apenas conservador. Ah, e sempre terá um parente seu como ator contratado.

Para ser um autor estilo Silvio de Abreu: Seu texto terá um núcleo cômico no nível histriônico. Uma personagem falando errado, bem bonitão, que cairá no gosto da galera. Um núcleo misterioso com personagens de hábitos esquisitos. Você escolherá entre um evento bombástico no primeiro capítulo ou várias mortes espalhadas durante a novela. No fim, gravará sete finais diferentes e escolherá a personagem mais xexelenta como o assassino. Seu folhetim terminará geralmente com alguém dado como morto, cheio de dinheiro, fugindo para o exterior.

Para ser um autor estilo João Emanuel Carneiro: Seu folhetim terá um vilão que se faz de mocinho e um mocinho que se faz de vilão. Você usará várias referências de suas obras passadas de formas bem delicadas e criará uma rede de vilões e mocinhos coadjuvantes que sempre se misturam. O cuidado começa na escolha das músicas até os traços de suas personagens. Geralmente você define todos os rumos da sua história no capítulo 100, enche mais uns 50 capítulos de linguiça e tem um final alucinante. Em todo fim de capítulo uma personagem é congelada numa foto preto e branco. Corta para os créditos.

Para ser um autor estilo Gilberto Braga: Seu drama terá um vilão antológico, que enche a boca para falar seu nome completo, ao estilo Odete Roitman ou Laura Prudente da Costa. Um casal romântico daqueles cheios de água com açúcar e um assassinato impactante, para que se estampem nas revistas de fofoca da semana seguinte: “QUEM MATOU FULANO?”. Provavelmente, este enigma será patrocinado por uma marca de temperos ou algo feminino e sorteará um prêmio para quem acertar o nome do assassino.

Para ser um autor estilo Aguinaldo Silva: Seu texto terá Susana Vieira como protagonista, provavelmente falando um sotaque nordestino que não existe. Você terá destaque nas redes sociais xingando todo mundo e criticando outras novelas. Divida a novela em duas fases, uma num passado relativamente distante e outra no presente. Crie uma personagem
coadjuvante fanfarrona que vai cair no gosto do público com bordões de impacto e um núcleo familiar com muitos irmãos e confusões.

Para ser um autor estilo Glória Perez: Você fará um texto com dois núcleos, um no estrangeiro e outro no subúrbio. Criara modas novas com danças que ninguém conhece, povos subestimados e coisas do tipo, além de cultivar um enredo social que envolva crianças, transplantes, tráfico, paz mundial ou Prêmio Nobel. Ou tudo junto. Mexerá com aspectos da ciência, religião e morte e criará fatos no limite do inacreditável, como três Murilos Benícios ao mesmo tempo.

Em todos os casos, tempere com um final feliz. Você ainda pode ter o dom de criar uma nova vertente e ganhar ainda mais dinheiro ou não ter o mínimo talento para dramaturgia. Neste caso, faça uma faculdade para ganhar dinheiro de forma convencional e lembre-se que o importante é ter saúde. Mas não esqueça que tentamos ajudar.

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