O Amor Num Disco de 1968

Eles faziam um casal ligado em novas tendências. Cult, assim eram chamados. Gostavam de boas músicas, bons filmes, boas bebidas. Se achavam únicos, ótimos, peculiares. Tão inimitáveis que elegeram o disco de Roberto Carlos, o de 1968, como trilha sonora do relacionamento.

Quando se conheceram, viviam um momento de solidão. Numa festinha de música brasileira, se fitaram e abriram um longo sorriso. Entre tragadas de cigarro e goles de bebida, se beijaram pela primeira vez. “Não vou deixar você tão só”, ele disse pra ela. “Ninguém vai tirar você de mim”, ela retrucou.

Com o tempo, as arestas apareceram no relacionamento. O ciúme. Maldito ciúme. Ela queria sair sozinha. Ele dizia “Se você pensa”. Ele falava com as amigas, ela gritava “É meu, é meu, é meu”. Eles discutiam, brigavam quase chegavam ao confronto físico. Ele murmurava: “Quase fui lhe procurar”; ela, entre lágrimas: “Eu te amo, te amo, te amo”.

As brigas ficaram cada vez mais freqüentes, as reconciliações rareavam. Ela escrevia, saudosa, d´“as canções que você fez pra mim”. Ele dizia que a amava, mas prezava a liberdade. “Nem mesmo você” vai mudar isso, bradava, com a incerteza que só os loucamente apaixonados tem.

Decidiram terminar, não dava mais. Na primeira vez que se reencontraram, ele enlouqueceu. Ao ser questionado por ela, respondeu, seco: “Ciúme de você”. Ao ser perguntada se voltaria, ela foi enfática, dizendo que “não há dinheiro que pague” uma recaída. Ela se recuperou, ele nem tanto, mas ambos pesavam a mesma coisa: “O tempo vai apagar”.

O relacionamento deles cabia num disco de 1968, mas não se eternizou. Hoje em dia, não aguentam mais ouvir falar do outro. De tão únicos, terminaram como tantos outros, com raiva, ferida aberta. Ela o xinga de nomes impublicáveis e, até mesmo, inimitáveis. Ele a resume com uma palvra cheia de mágoa e saudade: “Madrasta”.

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