Tira-Teima

Ele estava virando um árbitro famoso. Cotado como uma das grandes revelações da profissão. No começo de sua carreira, deixava o jogo correr. Respeitado pelos jogadores, seu sonho era pertencer aos quadros da FIFA e participar de uma Copa do Mundo. Tinha um olho clínico, a ponto do tira-teima sempre dar razão às suas marcações.

Quanto mais atuava bem, mais era conhecido. No meio do futebol, além de observado, passou a ser pressionado. Não se abalava. Ganhou prêmio de melhor árbitro do campeonato. Seu sonho parecia cada vez mais perto.

Além do prêmio, veio a fama. Com o reconhecimento, o assédio; até as marias-chuteiras o olhavam. Era um juiz pop. Começou a se julgar superior aos outros e desdenhar das interpretações de seus pares. Passou a destratar jogadores em campo. Analisava os atletas que estavam em evidência e queria dar uma lição neles.

Cheio de moral, começou a namorar uma modelo/manequim/cantora/atriz/ex-participante de reality show. Ao mesmo tempo, recebeu a notícia que iria apitar os dois jogos da decisão do campeonato. Os times eram rivais ferrenhos e um deles tinha um camisa 10 tinhoso, abusado, que falava o que vinha na cabeça. O craque declarou: “Espero que o juiz não atrapalhe o jogo”. Ele, vaidoso, decidiu punir o jogador rebelde.

Na primeira partida, jogo parelho, duro, cheio de rivalidade e malemolência, saiu distribuindo cartões amarelos, para controlar a peleja. A partida corria pegada, 0x0, quando num lançamento, o camisa 10 tinhoso entra em posição legal e ouve o trilar do apito. Impedimento. Confusão. Uma das TVs diz que estava em posição legal; outra diz que o impedimento era claro. Todos gritavam: “Olha o tira-teima!”

No meio do buruçu, do oba-oba, do furdunço, ele puxa o cartão vermelho e expulsa o pior zagueiro de um dos times e o cracaço do outro. “Filho da puta, vai ter volta”, gritava o temperamental jogador. Polêmica, assunto nas mesas redondas. Todos crucificavam o juiz, menos os comentaristas de arbitragem, que tentavam defendê-lo de qualquer maneira.

Durante a semana, o assunto foi o juizão. Clássico não tem favorito, mas é inegável que sem o camisa 10, um dos times tinha desvantagem, mesmo que o primeiro jogo tenha terminado empatado. Durante a semana, reparou que a namorada andava arredia, não demonstrava mais o mesmo interesse. Na véspera da partida, ela terminou o relacionamento. Atônito, não conseguiu dormir. Tomou um remédio, mal pregou os olhos.

No dia seguinte, ao ler os jornais, a surpresa: O camisa 10 foi visto com sua ex-namorada entrando num motel. Ele chorava e não acreditava. O craque tinha prometido, deu o troco. No tira-teima da vida, tomou uma bola nas costas. O jogador perdia a decisão, mas ele ganhava um chifre.

Na hora do jogo, entrou no gramado cabisbaixo. Ao fim dos 90 minutos de peleja, o time do craque perdeu por 2 x 0, um gol em posição duvidosa, outro em pênalti inexistente. A arbitragem foi muito criticada, mas ele sentia seus chifres vingados.

Depois dessa partida, foi suspenso, seguiu para reciclagem e tentou apitar nos gramados da Série B. Abandonou a carreira ao brigar com um jogador, depois que este o chamou de corno após a marcação de uma falta. Hoje é comentarista de arbitragem, mas só faz jogos do estúdio.

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