O Julgamento

No interior do Nordeste havia uma família rica, cujo filho mais velho mandaram estudar na cidade grande. Seu pai, coronel abastado, detinha grande respeito da população e era dono de metade da cidade…

… pois a metade restante era de outro coronel, homem rústico, de modos rígidos e educação arcaica, cujo filho desde cedo trabalhava na roça e vivia bolinando as moças da fazenda, embora protegesse a sua linda irmã como se fosse uma jóia. Além disso, os coronéis não se bicavam, o que tornava quaisquer encontros entre eles num embate tenso.

Os meninos desde pequenos não se davam. O filho do coronel abastado, de modos irretocáveis, era chamado de “florzinha”, “viadinho” e “fi de quenga” pelo filho do coronel rústico, além de apanhar bastante. O valentão tentou até mesmo bolinar o fracote guri algumas vezes.

Ao fazer faculdade de direito na metrópole, o guri educado virou um homem de amigos poderosos e encarando a vida de frente. Quando voltou ao interior para assumir a fazenda do pai, velho e doente coronel, sofreu com a inveja do seu rival bronco e ignorante, que assim que o viu começou a zombar e espalhar impropérios a seu respeito.

Ele não se importou. Cada vez mais era achincalhado, mas ignorava com galhardia seu rival. Ganhava cada vez mais respeito na cidade, para ojeriza do seu oponente. Este não se aguentou. Como um Caim matuto, não se suportou na inveja. Levantou, deu um murro no oponente e disparou.

– “Florzinha”

– “Viadinho”

– “Fi de Quenga”

Aquilo bastou. O menino era educado, mas não tinha sangue de barata. Puxou o revólver do coldre e disparou seis tiros no rival de tanto tempo. O escândalo tomou conta da cidade. O velho coronel rústico, embora caquético, se encheu de ódio. O atirador foi preso em flagrante, com as mãos sujas de pólvora e sangue. Ao ter direito a seu telefonema, falou com o pai.

O coronel abastado seguiu as instruções do rebento e entrou em contato com um famoso advogado da capital, professor de direito, contemporâneo do jovem na metrópole, que, vendo o amigo em apuros, não tardou em concordar ser patrono da causa e socorrê-lo.

Entretanto, o advogado descobriu que o juiz da causa foi de seus tempos na faculdade e grande, grande desafeto. Para completar o cenário, o promotor da cidade era casado com a irmã do morto, antes apaixonada pelo réu, e estava doido para colocá-lo atrás das grades, pelo motivo pouco nobre do ciúme e para dar uma satisfação à esposa.

Assim, depois de alguns meses de instrução processual – a qual o réu acompanhou em liberdade, por suposto – começou o julgamento que mudaria aquela cidade do agreste. Entre os jurados, gente da cidade. O carteiro, a professora, o farmacêutico, o homem da prefeitura. Todos pendendo para um lado ou para outro. Uma unanimidade seria quase impossível.

O libelo acusatório começou. Palavras pra lá, palavras pra cá. Aquele sem número de brocardos enfadonhos em latim. Data Venia. A feição sonolenta dos jurados contrastava com os olhos esbugalhados da promotoria e a arrogância do magistrado.

Depois de um sem número de horas e apresentações, elocubrações, teatros e pantomimas, chegou a hora da defesa falar. O advogado olhou para todos, se apresentou, fez um breve resumo do caso, mirou os olhos do excelentíssimo juiz e dispara:

– “Florzinha”

– “Viadinho”

– “Fi de Quenga”

O juiz olhou atônito e estupefato. Os jurados finalmente acordaram. A promotoria bradou contra o desrespeito. Mais uma vez o advogado falou, agora a plenos pulmões:

– “Juiz Florzinha”

– “Magistrado Viadinho”

– “Egrégio Fi de Uma Quenga”

Era humilhação demais para aquele juiz vaidoso. Ele não titubeou. Chamou a força policial e ordenou, imediatamente: “Prendam este advogado por desacato, agora!”

Quando a polícia chegou para algemar o nobre doutor, ele pediu mais um aparte. Rodou seu anel de rubi no dedo e calmamente falou ao juiz: “Vossa Excelência não aguentou que eu o xingasse duas vezes em um minuto e corretamente mandou me prender. Meu cliente foi humilhado desde a infância, durante anos, e depois de muito aguentar reagiu. Quem poderá julgá-lo culpado e condená-lo, o senhor?”

Naquele dia, por unanimidade, o réu foi absolvido, virando o novo coronel daqueles interiores. O juiz pediu transferência e o coronel rústico morreu de desgosto. O promotor perdeu a moral com a mulher e tomou um par de chifres dela, que fugiu com um caixeiro viajante para nunca mais voltar. O advogado virou dono de uma grande banca de causídicos na metrópole.

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2 opiniões sobre “O Julgamento

  1. Pingback: O Julgamento « milenaanjo

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