Galinha Pintadinha

“A galinha pintadinha e o galo carijó. A galinha usa saia e o galo, paletó”. Este era o antídoto para o choro do filho recém-nascido. Ele, policial há quase dez anos, balançava com o bebê para lá e para cá, enquanto ecoava o DVD infantil que finalmente cessava o berreiro.

Depois de colocar o pimpolho para dormir, um beijo na patroa e ir para a rua cumprir o serviço. Eram dias difíceis. Muitas mortes de policiais estavam ocorrendo. Para ele, morador da periferia, todo cuidado era pouco. A todo e qualquer momento, a roleta russa do infortúnio fazia uma escolha. Sorteá-lo era uma hipótese. O inimigo poderia ser qualquer um. Até a pessoa ao lado.

Andava pensando em mudar de ofício. Ser policial pagava mal, o risco era alto, não estava compensando. Talvez ser funcionário da prefeitura. Ou, quem, sabe, papiloscopista. Era uma profissão bacana, pagava bem. O importante era garantir o futuro da patroa e do guri. Uma vida que ele nunca teve.

O ponteiro dos minutos se arrastava naquele dia calorento e poluído. Nunca foi tão demorado chegar ao fim da escala. Finalmente chegou. Era hora de ir pra casa, enfrentar conduções lotadas e chegar ao destino. Perto da estação de trem, avistou um vendedor de bonecos de pelúcia. Uma galinha pintadinha. Preço salgado. Pechinchou, pechinchou e levou num preço amigável. Esboçou um sorriso.

A viagem demorou, chegou na estação de destino já de noite. Decidiu parar no bar perto de casa para comprar um refrigerante e levar para casa. Estava cansado, só queria se esticar no sofá e encontrar quem mais amava. Nem se apercebeu da moto chegando. Apenas sentiu a ardência no peito. Não reagiu. Nem deu tempo. Depois o estampido. E mais três.

Rodopiou e caiu. Fez cara de choro, mas lembrou da mulher e do filho. se abraçou no bichinho de pelúcia, agora manchado de vermelho. Ficou imóvel. Os criminosos fugiram, derrapando os pneus da moto. “Os pintinhos foram correndo, pra chamar o seu doutor”.

Tentava não desmaiar, manter a frieza, lembrar de tudo que o fazia bem. “A enfermeira era o urubu. uh-uh. E a agulha de injeção era a pena de um pavão”. Respirava com dificuldade. Escutou o barulho das sirenes ao longe, não sabia se estava acordado ou não. Amanhã talvez cante a música da Galinha Pintadinha. Talvez.

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